Artigos, Veganismo, Vida (d)escrita
Leave a Comment

Está faltando espanto!

No início dos anos 2000, quando eu cursava o ensino fundamental, uma das principais temáticas trabalhadas na escola era a conscientização ambiental. Por conta disso, cresci, de fato, muito consciente: tomando banhos curtos, escovando os dentes com a torneira fechada, utilizando o carro somente quando necessário e, é claro, postando várias fotos do meu cachorro demonstrando o quanto o amo e o trato bem.

Ao 21 anos, entretanto, tive acesso a muitas pesquisas e matérias que demonstraram que todos os meus esforços eram inúteis, e assim continuariam sendo, enquanto eu sustentasse, através dos meus hábitos, a indústria agropecuária.

Isso porque a agropecuária é responsável por uma quantidade absurda de impactos ambientais, tais como o desmatamento, a emissão de gases poluentes e a utilização exacerbada de água para a fabricação de seus produtos. Além disso, ela explora sem escrúpulos a vida de outros seres, como se sua espécie definisse o grau de respeito que os humanos devem à sua existência.

Diante dessas constatações, decidi que seria vegetariana e, um ano depois dessa decisão, me tornei vegana. Durante esse período (ainda curto), não pedi para que ninguém compreendesse as minhas razões – aliás, sequer as expliquei –, tampouco pedi para que me acompanhassem.

Hoje, entretanto, sei o quanto compartilhar minha experiência pode incentivar outras pessoas, e busco isso muito mais do que procuro rebater argumentos de quem se contrapõe ao veganismo. Em realidade, discutir “verdades” de qualquer natureza na internet já não é um comportamento que sustento.

O livro “Não nascemos prontos”, de Mario Sergio Cortella, tem um capítulo intitulado “Está faltando espanto”, cujo título peguei emprestado (sem pedir permissão), tanto para homenagear a figura ilustre do autor, em quem me inspiro, quanto para reiterar que, é verdade, falta espanto à humanidade – ou ele está, no mínimo, mal distribuído…

… Porque a palavra “vegano” espanta muito

Por experiência própria, sei o quanto pode ser difícil alinhar hábitos alimentares e de consumo com o veganismo, sobretudo quando você é um dos poucos que nada contra a maré – ou melhor, o tsunami -, enquanto o resto do mundo parece simplesmente ignorar todos os impactos causados por ele ou sequer fazer ideia de que impactos são esses.

Quando converso com as pessoas sobre o assunto, no entanto, percebo que a ideia construída acerca do veganismo é limitada a pouquíssimos de seus aspectos, e que as informações que chegam às pessoas sobre os impactos causados pelo consumo inconsciente de carnes e derivados animais são, em grande número, falaciosas – quando não são reduzidas a frases prontas (e ainda assim inconvenientes), como “não cheguei ao topo da cadeia alimentar para comer alface”.

Foi adquirindo conhecimento e me tornando consciente dos danos que causamos à natureza e, consequentemente, a nós próprios, ao consumir produtos de origem animal, que decidi e consegui me adaptar a um estilo de vida diferente.

Por falar nisso, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o consumo de carne por parte dos humanos não é um sinal de evolução ou civilização. As grandes civilizações se desenvolveram através do cultivo de cereais. De acordo com essa matéria do Scientific American, nossos corpos não se desenvolveram para estar em harmonia com uma dieta, mas para sobreviver com o alimento que estava à disposição, dependendo do contexto histórico e localização.

Atualmente, ressalvada a má distribuição de alimento – se é que há como fazer uma ressalva para essa covardia -, a humanidade dispõe de alimentos das mais variadas procedências, mas por viver refém da indústria, de sua propaganda e de seu lucro, consome somente o que lhe é servido: ultra-processados e carnes.

Um amigo me enviou este vídeo, que literalmente desenha como a redução do consumo de carne pode ajudar o planeta, e eu acho que todas as pessoas deveriam assistir.

Ser vegano é questionar tudo isso (e ainda mais coisas). E, sim, dá tanto trabalho quanto parece. A motivação, no entanto, é maior, visto que se adquire uma consciência maior daquilo que se está consumindo e, para além disso, daquilo que se está custeando.

Mas você não precisa ser vegano

Você não precisa deixar de sentir o sabor da carne, para saber que o setor agropecuário é responsável por 69% das emissões de gases do efeito estufa no Brasil, conforme essa matéria publicada pela Agência Brasil. Enquanto isso, os gases emitidos pelos transportes, atingem o montante de 11%.

Você já viu campanhas governamentais sobre reduzir o consumo de carne e derivados? Eu também não. No entanto, já vi campanhas sobre reduzir o uso de automóveis por conta da emissão de gases, que apesar de serem louváveis, ignoram o fato de que o maior poluente está bem longe das estradas.

Você não precisa ser vegano para saber que, para produzir um único hambúrguer, a indústria gasta mais de dois mil litros de água; que no Brasil, a cada segundo, morrem 1 boi, 1 porco e 180 frangos; que a população de gado é maior que a de humanos no nosso país, conforme dados do IBGE.

Você, definitivamente, não precisa ser vegano. E isso não é um apelo pela sua atenção através do sentimento de culpa, de verdade. Para saber que a indústria agropecuária explora, assassina, desmata e transforma todas essas atrocidades em dinheiro, basta você ter o mínimo de informação – que, aliás, está disponível gratuitamente a poucos cliques no seu celular ou computador.

Você também não precisa ser vegano porque leu um texto comovente na internet ou assistiu a um documentário sobre o tema. Mas você pode reduzir o consumo de carne e derivados se, de alguma forma, essas informações que citei forem relevantes para você.

Você não precisa, mas você pode. Eu não precisaria, mas sou, porque há felicidade em alinhar meus ideais com minhas palavras e, principalmente, com minhas ações.

Se falta espanto, imagine a empatia

Não posso e, mesmo que pudesse, não recomendaria algum documentário polêmico sobre animais sendo mortos para o consumo humano. Eu mesma nunca assisti nenhum. Ainda assim, sinto compaixão por todo e qualquer ser vivo – não porque tenho mais caráter ou mais sensibilidade que qualquer outra pessoa, mas porque, ao contrário do que a maioria das pessoas faz, eu simplesmente não ignoro o fato de que a minha vida é tão valiosa quanto a vida de qualquer outro ser.

De todos os motivos que citei, esse ainda é o maior deles: todas as vidas merecem respeito. Isso inclui o respeito às vidas humanas subjugadas à falta de alimento por conta de caprichos capitalistas, bem como as vidas selvagens submetidas à caça e as vidas domadas pelo cativeiro.

Já não compactuo com a morte de um ser vivo para satisfazer meu paladar momentaneamente, tampouco para satisfazer meu gosto por moda (que, honestamente, nunca tive um muito bom e nem me importo).

Não fantasio que minha postura salvará o mundo e nem estou satisfeita com o meu trabalho para isso, afinal, nas palavras de Cortella, “estar satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e constrangido ao possível da condição do momento”. Portanto, sigo insatisfeita, mudando e melhorando o que estiver ao meu alcance.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.