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Pare de tentar ser o que os outros esperam de você

Nunca li Hamlet, de Shakespeare. Ainda assim, sei que esse ensaio acolhe talvez uma das mais emblemáticas e célebres frases já escritas: ser ou não ser, eis a questão. Evidente que, dado seu uso quase que vulgar, nos dias de hoje, a sentença perdeu um pouco de seu carisma. Aliás, ouso dizer que qualquer frase que exija dos homens mais que mera assimilação, perde seu carisma na atualidade. Não porque as pessoas são menos inteligentes, mas porque estão, inegavelmente, mais alienadas.

Aprendemos que é preciso estudar – aliás, não só estudar, mas estudar muito – afinal, queremos ser alguém na vida. Nesse tocante, jamais consegui entender se “ser alguém na vida” significa ser importante de alguma forma para a história da humanidade, ou simplesmente ser notado.

De qualquer forma, estudamos muito, durante muitos anos. Aprendemos a escrever de acordo com a gramática; aprendemos a usar fórmulas matemáticas; aprendemos algumas propriedades químicas e aprendemos que corpo são e mente sã, são coisas complementares (daí a importância da educação física e afins). Aprendemos que tudo isso é importantíssimo para todos nós enquanto indivíduos e, antes de nós, nossos pais e avós já vinham aprendendo o mesmo.

Depois, precisamos trabalhar. E como precisamos! Dinheiro não dá em árvore, e as contas não se pagam sozinhas. Em contrapartida, engraçado notar que, às vezes, elas se criam sozinhas (ou melhor, são cobradas indevidamente).

Bom, então é isso. Nós estudamos para poder trabalhar; trabalhamos para poder pagar as contas. Nem penso em contestar o sistema capitalista, acho que já cansei disso. Ou talvez não tenha tempo, porque preciso estudar apenas o que me qualifica enquanto profissional, para que as contas que faço comprando roupas e objetos supérfluos, a fim de manter-me no padrão esperado, sejam sanadas.

Então, um dia, me deparo com a taquicardia e com os pensamentos acelerados. Tudo isso perde o sentido. Pronto. Fui diagnosticada com ansiedade! Agora sim, faço parte da minha geração: me preocupo constantemente com a minha aparência, embora a ansiedade me faça, ao mesmo tempo, desleixar dela; fico horas remoendo pensamentos antes de dormir, matutando repetidas vezes os meus “e se”; em casa penso no trabalho e no trabalho penso em minha casa; estou sempre preocupada com o que virá depois, mas, na ironia que é existir, ainda sinto as dores do que foi ontem.

Encaro a frase “Ser ou não ser, eis a questão” e, com pesar, percebo que não estou sendo. Conheço essa frase desde a infância, e jamais sequer prestei atenção à perspicácia dessa indagação. Não tive tempo. Ainda que não tenha lido Hamlet, sei que não estou sendo, porque procuro respostas prontas, o tempo inteiro: para as provas da escola e faculdade, para as questões do trabalho, para os problemas pessoais.  Procuro reproduzir padrões. Tudo o que faço é mera reprodução de tudo aquilo que me foi ensinado, e antes disso, fora ensinado às gerações pretéritas. Isso não é ser, no máximo, é existir – existir realizando anseios que sequer são meus.

Eu não li Hamlet, eu não sei a que se direciona a indagação do autor. Eu estive muito preocupada tentando ser alguém na vida e não tive tempo para ler, muito menos para tentar interpretar o que quer que Shakespeare quisera dizer… E enquanto vou vivendo em busca desse alguém que quero ser, sempre limitada pelo alguém que um dia já fui, tudo o que eu sou, neste momento, desvanece em angústia – não há tempo para o agora.

Como é difícil viver agora! Ser agora. Sentir agora. Vivo sem ser, a fim de perseguir o que pretendo vir a ser e o que pretendo ter, e isso me ocupa tanto tempo e espaço, que jamais me recordo de observar tudo que já sou e aquilo que já obtive. Em outras palavras: esqueço de agradecer àquilo que o agora me proporciona.

Nós, humanos, definitivamente não valorizamos o que já temos e, não bastasse isso, ainda superestimamos muitas de nossas ambições. Fantasiamos o prazer que vamos sentir quando da conquista de uma meta e, quando de fato a conquistamos, ela já não é mais suficiente para nos satisfazer. Isso definitivamente não é ser – no máximo, existir e realizar.

“Não ser” não faz o menor sentido, caro Shakespeare. A questão está resolvida: antes ser do que não ser. “Ser”, no entanto, implica na concepção de infinitas outras questões, às quais difícil e felizmente não seremos capazes que formular respostas prontas. Não há fórmula ou padrão para o “ser”. Eu vou dizer mais uma vez: não existe fórmula, nem padrão para o que se é, para o que se está sendo.

Agora, pergunto eu, o que você está sendo?

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