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Alimentação inconsciente: por que preferimos não saber o que estamos ingerindo?

A alimentação é uma preocupação constante: os tópicos de nutrição e boa forma física nunca saem de foco; o Instagram interrompe nosso feed para mostrar como as pessoas influentes se alimentam, se exercitam e cuidam da pele e, os anúncios, por toda a parte, nos incentivam a perder 5 quilos em milagrosos 7 dias por meio de dietas restritivas.

Existe uma cínica contradição que, no entanto, não ganha visibilidade. Os cuidados alimentares, embora obsessivamente preocupados com as calorias, são completamente desinteressados quando o assunto é a origem daquilo que se coloca no prato.

Vegetal ou animal, natural ou industrializado – enquanto estivermos perdendo peso ou adquirindo massa magra ou, ainda, obtendo prazer momentâneo, isso não importa. Esse afastamento apático entre as pessoas e a origem de seu alimento tem motivos furtivos e consequências graves.

Por que a origem daquilo que comemos perde a importância?

Talvez você já tenha sido indagado com relação a consumir ou não produtos de origem animal. Pessoas que consomem carne e derivados animais, geralmente têm uma abordagem debochada ou defensiva quando questionadas sobre o assunto.

“Eu sinto pena dos animais, mas não consigo parar de comer carne” – acho que essa é uma das frases que mais ouço quando numa argumentação pró-veganismo. Mas no momento em que as pessoas se deparam com o sofrimento enfrentado pelos animais que colocam em seus próprios pratos, a maioria delas tende a realmente se sensibilizar.

Por que, então, a discussão sobre a origem dos alimentos que consumimos é tão árdua e tão pouco valorizada? Por que preferimos não saber a origem do que estamos comendo?

É verdade que aquilo que é novo aos nossos olhos pode causar espanto ou deslumbramento. Frequentemente, contudo, a primeira reação é o espanto. Para uma população, como a brasileira, que se construiu, cultural e economicamente, em torno da carne, a ideia de não consumir derivados animais parece inaceitável.

Mesmo com a rápida e acessível difusão de estudos atestando que as dietas vegetariana e vegana, quando balanceadas, têm impactos muito positivos no corpo humano e, ainda que muitos benefícios de ordem econômica, psicológica e até mesmo de grande impacto ambiental podem ser atingidos através desse estilo de vida, as pessoas têm resistência para aceitar e ouvir sobre o tema.

A relutância para falar sobre o veganismo não provém de um impulso pessoal – pelo menos não apenas disso.

Nascemos e crescemos condicionados a determinados comportamentos e até mesmo pensamentos. A mídia e a cultura tradicional impõem certas “verdades” à nossa educação, que dificilmente são confrontadas, sobretudo porque são financiadas e sustentadas por grandes produtores… de carne!

Se estudássemos apenas aquilo que a televisão e os livros didáticos básicos colocam à nossa disposição, dificilmente compreenderíamos que é possível garantir uma alimentação completamente balanceada sem consumir proteína animal. Uma rápida pesquisa no Google, entretanto, é capaz de nos provar – com evidências científicas – que isso não é verdade.

Só que demonstrar isso para uma população já condicionada a esses entendimentos é uma tarefa árdua, que ocorre paulatinamente. O veganismo vem conquistando espaço, não por simplesmente ser efetivamente saudável e sustentável, mas porque muito ativismo é empreendido no sentido de conscientizar as pessoas.

Infelizmente, alguns indivíduos realmente optam por abordagens arrogantes, o que acaba distanciando ainda mais as pessoas desse tópico. Apesar disso, a maioria das abordagens feitas pelos ativistas não chega a ser arrogante ou agressiva – muito pelo contrário, são sensatas e respeitosas.

O que acontece é que o condicionamento em massa cumpre o seu papel: a resistência ao movimento já é tão ampla, dilatada pela propaganda e por estudos comprados, que a reação à introdução do tema, ainda que realizada por meio de uma abordagem passiva e descontraída, tende a ser hostil.

Dessa forma, saber que origem têm os alimentos que ingerimos vai perdendo a importância, primeiramente porque está mascarado pelo “sabor”, pela propaganda ou pela ilusão de higiene causada pela industrialização e, em segundo lugar, porque as pessoas não se dispõem a discutir ou sequer a pensar sobre o assunto.

A diferença entre hábitos e comportamentos conscientes – e porque isso é importante

É verdade que existem muitos hábitos que geram saúde e bem-estar e, por isso, são comportamentos benéficos para se adotar e manter no dia a dia. Apesar disso, todo hábito é uma ação que já não mais é pensada, ou seja, trata-se de uma ação que já faz parte da nossa programação mental.

Hábitos são ações inconscientes.

Dito isso, é importante destacar que tudo aquilo que fazemos de maneira inconsciente, ainda que benéfico, merece ser reavaliado constantemente. Ao deparar-se com um comportamento habitual, qualquer que seja, pergunte-se por que você realiza essa ação.

Você acorda cedo ou tarde? Por quê? Toma café da manhã? Por quê? Faz exercícios físicos? Por quê?

É provável que você tenha razões óbvias para cada um desses hábitos (ou para a falta deles), mas continue perguntando por que, até decifrar cada estímulo e cada impulso que vem a, então, justificar os seus hábitos.

Ações conscientes, por sua vez, são sempre pensadas – ou melhor, sentidas. São aquelas ações que desenvolvemos quando estamos presentes no agora, e que sabemos exatamente que consequências podem gerar.

É importante distinguir esses dois tipos de comportamento, porque o que quero mostrar é o seguinte: aquilo que você come ou deixa de comer, provavelmente faz parte da sua programação e, portanto, trata-se de um hábito – uma ação inconsciente.

Não consumir produtos de origem animal é uma escolha, uma ação consciente que, com o tempo, transforma-se em hábito. A habitualidade não necessariamente faz de um comportamento nocivo, conforme dito anteriormente.

A chave aqui é reavaliar os hábitos, tanto os bons quanto os ruins. Esse é um exercício constante, que depende da nossa própria vontade. Mesmo pessoas que têm hábitos majoritariamente saudáveis podem perceber que muitos deles já não servem mais, por não mais compactuarem com seus objetivos de vida ou com as possibilidades do momento.

É claro que isso não diz respeito somente à alimentação, no entanto, a alimentação tem caráter essencial para todos nós e, por isso, comer de modo consciente, por si só, já é uma revolução completa.

Conscientemente, sabendo da origem de cada item do seu prato, você opta nutrir o seu corpo com o quê? Ou com quem?

 

2 Comments

  1. Lutar contra as propagandas ou os influenciadores é quase como nadar contra a maré, alguns produtos eu até me questiono se a celebridade A ou B consomem mesmo, vai de cada um acreditar. Mas a reflexão do texto foi muito interessante. Admito que não consigo deixar de comer carne, mas passei a me atentar aos produtos industrializados, depois que uma colega de trabalho alertou sobre o assunto. Olhando com a mente aberta temos muitas opções de alimentos mais saudáveis, basta querer mudar.

    • Concordo contigo sobre os industrializados. Acredito que, uma vez que você desperta pra essas coisas, esse processo só tende a aumentar, e cada dia você se torna mais desperto e consciente, se assim se permitir.

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