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Uma dor feminina e abstrata

Nunca antes havia me sentido tão mulher. Capaz de gerar, nutrir e cultivar. Também jamais havia me sentido tão importante antes: eu era tudo para alguém. Não o tudo romântico, idealizado e apaixonado; eu era, literalmente, tudo: a casa, o alimento, a proteção e também a catástrofe.

Uma mulher que não é mãe, será sempre uma mulher. Será subjugada a muitas injustiças pelo seu sexo e submeter-se-á a muitas dores, será também a resistência à hostilidade e, sem dúvidas, será a responsável por alguma (ou muito mais de uma) conquista. Uma mulher que é mãe, no entanto, experimenta ser mais do que mulher, uma vez que ela se torna o tudo de alguém. Pelo menos até esse alguém se tornar o tudo para ela, ou um nada intangível.

Não conhecia esse sentimento até o momento em que eu descobri que seria mãe. Para ser mais honesta, eu menosprezava a maternidade. Fiz miserável a minha própria mãe, tantas vezes, por não ter ideia do que significava sê-lo. E como é fácil despedaçar seus corações quando você só é uma filha – mas para elas, é o mundo.

Tão logo meu mundo virou-se de ponta-cabeça, ele se despedaçou. Eu era tudo para alguém… que não estava mais ali. E o tudo que era meu (que era nosso, meu e do meu companheiro), tornou-se um vazio. Quase um quadro em branco – onde podemos pintar novas possibilidades – só que manchado de sangue. E isso doeu. Doeu tanto…

Um fato estranho sobre a dor: às vezes ela é matéria-prima das mais belas obras artísticas; outras vezes ela é só uma aflição, abstrata demais, até mesmo para a arte.

Então eu fui a casa, o alimento, a proteção – eu fui o tudo – de alguém. Fui mãe. Eu gerei e nutri, mas não pude cultivar. Fui a catástrofe. Só que nessa tragédia não há culpa. Nunca antes havia me sentido tão mulher.

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Eterna aprendiz enquanto terrestre. Escrevo sempre que posso, cuido das obrigações nas horas vagas.

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