Autorais, Minimalismo
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Consumo e identidade: de onde vem essa ideia de que precisamos comprar nossa personalidade?

O conforto de não questionar o que nos é imposto como necessidade é, de fato, aconchegante. Apesar de exaustivo, é mais fácil aderir ao ritmo em que nosso mundo se movimenta atualmente do que indagá-lo. Questionar requer esforço emocional e nós fomos, justamente, convencidos de que não há tempo nem espaço para sentir.

Ainda na revolução industrial, com a ascensão da classe burguesa e seus ideais imediatamente posteriores (que prezam pelo livre-mercado e pela propriedade privada, dentre outros ideais igualmente problemáticos, sobretudo para os pobres), criou-se um problema: os avanços industriais e tecnológicos passaram a exigir do homem uma mecanização semelhante à das máquinas – mesmo quando seu trabalho é intelectual – e diante da mecanização surgem crises de identidade em massa.

A mecanização das ações e das respostas exigidas pelo mundo segregada e altamente capitalizado, além do isolamento decorrente dessa mesma conjuntura, são o berço do ceticismo que até os dias de hoje embala a mentalidade humana. Existe um sentido para estarmos aqui? Se a morte é certa, por que me preocupar com uma carreira?

Diante dessa problemática e, a fim de dar um rumo útil aos rebanhos niilistas, o capitalismo, extremamente articulado, nos vende a solução, batizando-a de “estilo de vida”. Portanto, não importa se, em meio às suas incessantes jornadas de trabalho, estudo e cuidados com a casa, você não tem tempo para entender quem você é; a solução é simples: basta comprar sua identidade.

Assim, para assumir uma personalidade, você precisa ter produtos que reafirmem constantemente seu estilo de vida. Seus gostos musicais devem estar estampados nas roupas e objetos que você utiliza; suas preferências alimentares, suas crenças, seus ceticismos… tudo precisa ser comprado para que você sinta que, de fato, é aquilo que acredita ou quer ser.

A mentalidade por trás do consumismo inconsciente é “compro, logo sou”, inspirada na célebre sentença “penso, logo existo”, de Descartes que, por sua vez, guarda uma semelhança distante com a verdade: sinto, logo sou.

Não obstante, a mídia, em seus mais diversos formatos (televisão, internet, redes sociais, revistas…), tem o importante papel de nos causar uma sensação de perpétuo vazio: vazio por não ter um carro, uma roupa, um acessório.

Estamos, literalmente, programados a participar dessa classe de consumistas inconscientes. Todos os conteúdos que acessamos nos dizem isso, todos os dias. E, apesar de nada digna, a realidade é que uma mentira repetida muitas vezes, acaba se tornando uma verdade aos ouvidos de quem a escuta – ou aos olhos de quem a enxerga.

De igual forma, o consumo exagerado de comida não é um acaso das vidas apressadas; trata-se de mais uma articulação, que nos mantém sedentários de corpo e mente, nutrindo pobremente nossos corpos com ultraprocessados e substâncias literalmente tóxicas.

Despertar a percepção de que não precisamos reafirmar nossa personalidade fazendo compras, no entanto, pode trazer uma sensação de não pertencimento assustadora, afinal, se não somos parte de um grupo designado a partir de nossos pertences, quem somos?

Essa programação nociva termina com um elemento surpresa: o medo. Temer a sensação de não pertencimento, de vazio, é o que vai nos manter estagnados, ou seja, presos a essa realidade.

A superação da ideia de que precisamos comprar (consumir) a nossa identidade acontece somente quando há o enfrentamento do medo (de não ser ou não pertencer). Antes disso, há apenas estagnação ou aceitação da realidade que nos é, literalmente, vendida.

Uma vez despertos para a possibilidade de outras realidades que não essa apresentada como única e correta, precisamos, assim como no momento em que acordamos de manhã, deixar a nossa zona de conforto – os, então, metafóricos cobertores – e, antes de mais nada, firmar nossos pés no chão.

É preciso saber que nem tudo o que nos é apresentado como necessidade é, de fato, necessário. Quem sabe, estamos trabalhando tão louca e exaustivamente, para pagar por coisas de que não precisamos. Já parou para analisar isso?

Aqui, cabe dizer que necessidades básicas como alimento, agasalho e abrigo não se tratam de luxos ou necessidades impostas, mas de condições básicas de subsistência, a que todos nós temos direito enquanto habitantes da terra (e irmãos, para quem tem fé na espiritualidade e na fonte primordial que nos conecta, inevitavelmente, uns aos outros).

O consumo inconsciente é um hábito (um vício!) amplamente difundido na sociedade a nível mundial. Interromper um vício é deixar de alimentá-lo. E a chave para essa mudança não está no consumo, mas no consciente.

Consumir menos não significa livrar-se de confortos, mas reduzir e eliminar tudo aquilo que não tem valor em nossas vidas; tudo o que nos distancia de quem realmente somos. O consumo, assim como qualquer outra atividade, precisa ser feita conscientemente, ou estará fadada a uma reprodução mecanizada e não servirá a nenhum fim (ou servirá a um fim alheio aos reprodutores).

Para manifestar uma identidade, precisamos de ações, e não de produtos.

Uma caneca da Marvel não agrega heroísmo às nossas vidas; atitudes corajosas, sim. Roupas caras não nos deixam bonitos; humildade e simpatia, sim. Entende?

Não faz mal ter objetos temáticos ou caros se eles são úteis ou fazem sentido na sua vida. O que faz mal é procurar neles o que esteve, o tempo todo, em você. Não se pode colocar um preço na identidade de qualquer ser vivo. Ter personalidade é muito antes sobre ser e fazer, do que é sobre ter.

Inspiração para o post: A viagem de Chihiro

5 Comments

  1. Gostei muito do texto. É coerente com o que penso, com o que me angustia e faz pensar. Enfim, a globalização e a miscigenação, aliadas a uma identidade mais global e menos regional, talvez criem um ambiente para no futuro a coisa pública ser de fato pública e gerar adesão sem fronteiras (sejam intelectuais, físicas ou culturais). Qual mundo de Chihiro é verdadeiro? Ou ambos são?

  2. Muito interessante essa reflexão! Acho que a pergunta mais difícil de ser respondida é “Quem eu sou?”. Sem marcas, rótulos, sem exatamente comprar a nossa personalidade e comprar a nossa felicidade. Talvez entender que a felicidade está dentro da gente e não nas coisas e no status seja a questão. Eu estou na busca de me autoconhecer e me deparar com esse post hoje foi uma boa surpresa! Obrigada

    • É verdade. Acho que o autoconhecimento é o caminho mais difícil, mas também o mais compensador <3 siga firme, forte e iluminada

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