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Somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos?

Uma análise da célebre frase de “O Pequeno Príncipe”, por Antoine De Saint-Exupéry sob o viés da Comunicação não-violenta, de Marshall B. Rosenberg.

Ao final de uma aula de Justiça Restaurativa, em 2017, minha professora questionou uma frase que eu vinha tomando por verdade desde os meus cinco anos de idade: somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos?

A fantástica criação de Antoine De Saint-Exupéry, intitulada “O Pequeno Príncipe”, na minha opinião pessoal, não deixa margem para críticas. No entanto, mais importante do que criticar as leituras que consumimos, a obra permite (e até incita) muitos questionamentos.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

― Saint-Exupery A.

Quando tomei por verdade a frase dita pela raposa de Exupéry, na minha compreensão infantil (ou condicionada?), tomei também por verdade que eu era responsável pelos sentimentos das pessoas que cativei.

Somente depois de conhecer a Comunicação não-violenta por meio da Professora Ester Eliana Hauser e, mais tarde, ao ler o livro de Marshall B. Rosenberg, fui capaz de ressignificar a frase que tão orgulhosamente recitava desde criança.

Mas qual é o problema em constatar que somos responsáveis por aquilo que cativamos?

A responsabilidade que assumimos pelos sentimentos dos outros, mas nunca pelos nossos

Estamos habituados com um conceito de responsabilidade que não, necessariamente, satisfaz o entendimento que buscamos: a obrigação de responder por atos próprios ou alheios.

Assumir uma responsabilidade é, portanto, responder às consequências decorrentes de atos próprios ou alheios (quando as circunstâncias assim o requerem, em aspectos legais, por exemplo). Mas e quanto à responsabilidade afetiva?

Em geral, fomos ensinados a tomar responsabilidade (ou responder) por sentimentos alheios e, ao mesmo passo, a responsabilizar outras pessoas por aquilo que sentimos.

Apesar de ser fatídico que as ações dos outros podem, sim, desencadear transtornos, Rosenberg pontua em seu livro que existe uma diferenciação a ser feita entre causa e estímulo.

Segundo o autor, “o que os outros dizem e fazem pode ser o estímulo, mas nunca a causa de nossos sentimentos”. Para Rosenberg, nossos sentimentos resultam da maneira como escolhemos receber o que as pessoas nos disseram ou fizeram.

Diante dessa questão, a frase “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” pode ser interpretada como uma forma de reafirmar uma responsabilização alheia às nossas escolhas, vontades e necessidades.

Como receber mensagens sem assumir responsabilidades alheias?

Rosenberg elenca quatro reações possíveis para quando recebemos mensagens (especialmente negativas):

  1. Culpar a nós mesmos: aceitamos o julgamento da outra pessoa e passamos a assumir o sentimento de culpa ou vergonha pelo que o outro sente.
  2. Culpar os outros: culpar o interlocutor por sentir-se como sente e, em decorrência, assumir o sentimento de raiva.
  3. Escutar nossos próprios sentimentos e necessidades: identificar o que sentimos com a mensagem do interlocutor e reconhecer que necessidade não está sendo atendida no processo de comunicação (ou em situações práticas).
  4. Escutar os sentimentos e necessidades dos outros: identificar o sentimento e reconhecer que necessidades do interlocutor não estão sendo atendidas.

Aceitamos a responsabilidade por nossos próprios sentimentos – e não pelos sentimentos alheios – quando reconhecemos que, da expressão de cada sentimento, decorre uma necessidade não satisfeita.

Deixamos de assumir responsabilidade pelos sentimentos dos outros quando compreendemos que sua mensagem não é um julgamento pessoal, mas uma expressão de insatisfação de alguma de suas necessidades.

Quando a raposa fala sobre responsabilidade

A ressignificação da frase analisada aqui é pessoal, mas talvez possa servir para mais pessoas.

Quando a raposa fala em responsabilidade, ao invés de compreender que devemos responder pelos atos e sentimentos de tudo aquilo que cativamos, escolhi entender que tudo o que eu cativei, o fiz por meio de uma escolha consciente e própria, atribuindo à responsabilidade um significado de consciência.

Portanto, eu me torno eternamente consciente de tudo aquilo que conquistei.

A consciência e o entendimento sobre responsabilidade não exigem, mas possibilitam que, a partir do momento em que eu cativo alguma coisa ou alguém, eu aja com responsabilidade e com respeito.

A raposa continua sendo minha personagem favorita.

4 Comments

  1. silvete says

    Ótimo! Parabéns Bibiana! Você é um sucesso, continue escrevendo e enchendo a nossa alma de coisas boas após as reflexões que nos proporciona.

  2. Bruna Bronzatto says

    Que texto maravilhoso com uma conclusão linda, como você. Beijo.

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