Democracia e responsabilidade: a falência do direito penal

O sistema penal brasileiro enfrenta uma situação bastante delicada: a realidade (tanto processual como carcerária) apresenta profundas desconformidades em relação ao que a legislação proclama.

Muito embora o direito penal seja fundado a partir de processos democráticos, ele não vem obtendo os resultados a que, em tese, se propõe, especialmente em relação às diretrizes dos direitos humanos.

Atualmente, o sistema penal parece se impor não para restaurar uma sociedade desestabilizada e transtornada pelo crime – este decorrente de fatores mais densos, como a falta de educação de qualidade e a miséria, por exemplo – mas tão somente para amortecer seus efeitos através da idealização (fantasiosa) de um “perfil criminoso”.

Na prática, o poder punitivo do Estado é direcionado àqueles que, supostamente, são “maus” em essência. Não bastasse essa superficialidade, o direito penal reproduz, ainda, um conceito de justiça baseado na ideia de prêmio/castigo, preocupando-se em executar uma vingança que, na democracia, deixa de ser privada, mas passa a ser legalizada para o Estado.

A responsabilização penal em uma sociedade Democrática

A missão do Direito Penal

Para entender o que é, de fato, a responsabilização penal num contexto democrático, precisamos questionar: qual deve ser a missão do Direito Penal dentro de uma Democracia?

O Direito Penal tem uma função social dentro do Estado Democrático de Direito. A delegação de uma pena ao indivíduo infrator significa – ou deveria significar, numa perspectiva ideal desse contexto – além de um castigo à pessoa do condenado, a intenção de evitar a prática de novos crimes.

Se a pena é um mal necessário, devemos, num Estado Social e Democrático de Direito, buscar aquela que seja suficientemente forte para a proteção dos bens jurídicos essenciais, mas que, por outro lado, não atinja de forma brutal a dignidade da pessoa humana. – Greco (2010, p. 530).

Portanto, além de retribuir ao indivíduo o ‘mal’ causado, teoricamente o Direito Penal se propõe a assegurar que ele não volte a ter essa conduta e, ainda, a proteger a sociedade do infrator, por meio de sua exclusão do convívio social.

A falência desse sistema está claramente evidenciada pela superlotação de presídios e penitenciárias, bem como pelos índices de criminalidade ainda exuberantes no Brasil e no mundo.

A Criminologia e a Sociologia do direito penal contemporâneo assinalam diferentes funções. Para uns, por exemplo, o sistema penal cumpre a função de selecionar, de maneira mais ou menos arbitrária, pessoas dos setores sociais mais humildes, criminalizando-as, para indicar aos demais os limites do espaço social. […] Em síntese, o sistema penal cumpre uma função substancialmente simbólica perante marginalizados ou próprios setores hegemônicos (contestadores e conformistas). A sustentação da estrutura do poder social através da via punitiva é fundamentalmente simbólica. – Zaffaroni (2004, p. 76)

Não obstante, o caráter retributivo da pena oferece ao infrator uma medida puramente social-negativa que, por si só, se contrapõe a qualquer atuação preventiva, visto tratar-se de uma espécie de expiação, que anda em sentido oposto, inclusive, à possível ressocialização do apenado.

Em relação ao conceito de responsabilidade, a Constituição Federal de 1988 prescreve em seu Art. 5º, inciso XLV que “Nenhuma pena passará da pessoa do condenado” (princípio da personalidade da pena).

Esse princípio conecta-se à questão da responsabilidade à medida em que estabelece que a pena deve atingir apenas o réu, atribuindo-lhe, exclusivamente, a responsabilidade de assumir as medidas impostas.

Além do princípio descrito, há outros que norteiam a atuação do Direito Penal, como o princípio da humanidade. Essa diretriz é fundamental a um Estado Democrático de Direito: torna imprescindível o respeito à dignidade das pessoas receptoras das penas.

Nesse sentido, Ferrajoli (2010, p. 364) sustenta que o valor da pessoa humana impõe que exista uma limitação em relação à quantidade e à qualidade da pena, acima de qualquer argumento utilitário.

Assim, segundo o autor, um Estado que aplica penas desumanas (morte, tortura, etc.) contradiz sua razão de ser, já que em outra ocasião o mesmo Estado incumbe-se da tutela da vida e demais direitos fundamentais.

Por fim, importante destacar o princípio da jurisdicionalidade, que constitui uma garantia de que a jurisdição será aplicada por meio de processo.

A legislação penal, embora desatualizada frente às transformações sociais, aparentemente concorda com o caráter democrático do Estado Brasileiro. Na prática, porém, é evidente não efetivação dos princípios constitucionais.

A superlotação dos estabelecimentos prisionais e, por outro lado, a incessante criminalidade presente nas ruas, comprovam efetivamente a falência do sistema. Além disso, a arbitrariedade com que as milícias executam civis nas periferias e sequer são punidas, demonstra que a função social do direito penal é tão simbólica quanto injusta.

O assassinato de Marielle e Anderson, pelas mãos da milícia e sob ordens (de quem?) específicas, demonstram trágica, mas perfeitamente, a falência de um direito penal que, em realidade, cumpre uma função não positivada em nossas leis: o genocídio.

Mas voltando à questão primordial, o Direito Penal, dentro de uma democracia, deve se propor a reduzir os níveis de violência – tanto em relação à criminalidade quanto em relação às penas.

O sistema penal, do modo como se configura atualmente, especialmente do ponto de vista prático, vem se tornando insustentável, à medida em que simplesmente trata de remover do convívio social aqueles indivíduos que apresentam um certo tipo de perigo, não se preocupando em, efetivamente, reeducá-los ou sequer atender às suas necessidades mais básicas, como o oferecimento de um espaço minimamente digno para a execução de uma pena privativa de liberdade, por exemplo.

Dito isso, seria de grande valia que novas práticas viessem a ser adotadas no âmbito penal –  não a fim de extinguir o modelo penal que conhecemos hoje, mas de complementar e otimizar sua atuação. E uma das chaves para essa efetivação é o conceito de responsabilidade penal.

Uma nova concepção de responsabilidade

A Justiça Restaurativa apresenta-se como uma resposta inovadora e bastante consistente à resolução de alguns conflitos, já que se funda sob uma perspectiva diferente ao criar estratégias de responsabilização que garantem, tanto à vítima quanto ao ofensor, o respeito à sua dignidade enquanto pessoas.

Aqui, a responsabilização supera seu conceito tradicional e de viés moral porque todas as pessoas envolvidas na situação objeto da prática restaurativa (o crime) reconhecem o dano causado à vítima e tomam ação de modo assertivo para restaurar, emendar ou minimizar as consequências do ato. (SICA, 2007)

A responsabilização, no âmbito restaurativo, ultrapassa o caráter individualista ou de reprovação que se relaciona à responsabilidade tradicional.

À responsabilidade restaurativa é intrínseca a ideia de auto responsabilização, principalmente por parte do ofensor – processo cuja complexidade supera a noção da imposição de dor pelo mal causado.

Ao perceber o sofrimento alheio e, consequentemente, relacionar-se com a dor alheia com empatia, o autor do fato passa a assumir responsabilidade pelos seus atos.

De maneira prática, a assunção de responsabilidade, sob o viés restaurativo, precede as ações que serão efetivadas para reparar os danos causados.

Isso faz com que os sujeitos (1) sejam incumbidos de determinadas atribuições a fim de resolver, de maneira prática e eficiente, os danos ocasionados pela situação conflituosa e (2) superem sua condição de réu ou vítima enquanto partes dessa relação.

A atribuição da responsabilidade pelo viés restaurativo confere aos envolvidos um grande senso de humanidade, perfeitamente adequado a um Estado Democrático de Direito.

Referências:

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal, 13° Ed, v. 1. Rio de Janeiro: Impetus, 2010.

SICA, Leonardo. Justiça Restaurativa e Mediação Penal – O Novo Modelo de Justiça Criminal e de Gestão do Crime. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. Ed., 2007.

ZAFFARONI, Eugenio Rául. Manual de Direito Penal Brasileiro. 5ª Edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004.

WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. O sistema Penal e a proposta relegitimante minimalista: o utilitarismo penal reformado de Luigi Ferrajoli. Disponível em: < https://www.garantismobrasil.com/single-post/2015/06/13/O-sistema-penal-e-a-proposta-relegitimante-minimalista-o-utilitarismo-penal-reformado-de-Luigi-Ferrajoli > Acesso em: 20 abr. 2018.

Somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos?

Uma análise da célebre frase de “O Pequeno Príncipe”, por Antoine De Saint-Exupéry sob o viés da Comunicação não-violenta, de Marshall B. Rosenberg.

Ao final de uma aula de Justiça Restaurativa, em 2017, minha professora questionou uma frase que eu vinha tomando por verdade desde os meus cinco anos de idade: somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos?

A fantástica criação de Antoine De Saint-Exupéry, intitulada “O Pequeno Príncipe”, na minha opinião pessoal, não deixa margem para críticas. No entanto, mais importante do que criticar as leituras que consumimos, a obra permite (e até incita) muitos questionamentos.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

― Saint-Exupery A.

Quando tomei por verdade a frase dita pela raposa de Exupéry, na minha compreensão infantil (ou condicionada?), tomei também por verdade que eu era responsável pelos sentimentos das pessoas que cativei.

Somente depois de conhecer a Comunicação não-violenta por meio da Professora Ester Eliana Hauser e, mais tarde, ao ler o livro de Marshall B. Rosenberg, fui capaz de ressignificar a frase que tão orgulhosamente recitava desde criança.

Mas qual é o problema em constatar que somos responsáveis por aquilo que cativamos?

A responsabilidade que assumimos pelos sentimentos dos outros, mas nunca pelos nossos

Estamos habituados com um conceito de responsabilidade que não, necessariamente, satisfaz o entendimento que buscamos: a obrigação de responder por atos próprios ou alheios.

Assumir uma responsabilidade é, portanto, responder às consequências decorrentes de atos próprios ou alheios (quando as circunstâncias assim o requerem, em aspectos legais, por exemplo). Mas e quanto à responsabilidade afetiva?

Em geral, fomos ensinados a tomar responsabilidade (ou responder) por sentimentos alheios e, ao mesmo passo, a responsabilizar outras pessoas por aquilo que sentimos.

Apesar de ser fatídico que as ações dos outros podem, sim, desencadear transtornos, Rosenberg pontua em seu livro que existe uma diferenciação a ser feita entre causa e estímulo.

Segundo o autor, “o que os outros dizem e fazem pode ser o estímulo, mas nunca a causa de nossos sentimentos”. Para Rosenberg, nossos sentimentos resultam da maneira como escolhemos receber o que as pessoas nos disseram ou fizeram.

Diante dessa questão, a frase “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” pode ser interpretada como uma forma de reafirmar uma responsabilização alheia às nossas escolhas, vontades e necessidades.

Como receber mensagens sem assumir responsabilidades alheias?

Rosenberg elenca quatro reações possíveis para quando recebemos mensagens (especialmente negativas):

  1. Culpar a nós mesmos: aceitamos o julgamento da outra pessoa e passamos a assumir o sentimento de culpa ou vergonha pelo que o outro sente.
  2. Culpar os outros: culpar o interlocutor por sentir-se como sente e, em decorrência, assumir o sentimento de raiva.
  3. Escutar nossos próprios sentimentos e necessidades: identificar o que sentimos com a mensagem do interlocutor e reconhecer que necessidade não está sendo atendida no processo de comunicação (ou em situações práticas).
  4. Escutar os sentimentos e necessidades dos outros: identificar o sentimento e reconhecer que necessidades do interlocutor não estão sendo atendidas.

Aceitamos a responsabilidade por nossos próprios sentimentos – e não pelos sentimentos alheios – quando reconhecemos que, da expressão de cada sentimento, decorre uma necessidade não satisfeita.

Deixamos de assumir responsabilidade pelos sentimentos dos outros quando compreendemos que sua mensagem não é um julgamento pessoal, mas uma expressão de insatisfação de alguma de suas necessidades.

Quando a raposa fala sobre responsabilidade

A ressignificação da frase analisada aqui é pessoal, mas talvez possa servir para mais pessoas.

Quando a raposa fala em responsabilidade, ao invés de compreender que devemos responder pelos atos e sentimentos de tudo aquilo que cativamos, escolhi entender que tudo o que eu cativei, o fiz por meio de uma escolha consciente e própria, atribuindo à responsabilidade um significado de consciência.

Portanto, eu me torno eternamente consciente de tudo aquilo que conquistei.

A consciência e o entendimento sobre responsabilidade não exigem, mas possibilitam que, a partir do momento em que eu cativo alguma coisa ou alguém, eu aja com responsabilidade e com respeito.

A raposa continua sendo minha personagem favorita.

Por que você deve ter uma carteira de estudante?

Se você é estudante, saiba que a carteira de estudante é um direito seu. Ela é oficial das entidades estudantis de nível nacional, a UNE, UBES e a ANPG. Mas pra quê serve esse documento? Bem, a carteira de estudante é o único comprovante aceito para que seja liberada a compra da meia entrada estudantil em shows, cinemas, jogos de futebol e demais eventos artísticos, esportivos e culturais.

Como surgiu a Carteira de Estudante.

A carteira de estudante surgiu depois que a Lei da Meia Entrada foi aprovada em 2013. Nela foi criada a CIE (Carteira de Identificação Estudantil) pela Lei Federal nº 12.933

A lei trata especificamente da meia entrada estudantil e prevê um modelo unificado nacionalmente pela Documento do Estudante, e regulamentada pela UNE ( União Nacional dos Estudantes). Como também pela Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI).

Do mesmo modo, neste mesmo ano foi criado o “Estatuto da Juventude” (Lei Federal nº 12.852/2013) o qual assegura os direitos dos jovens e as políticas públicas voltadas para eles.

Como identificar se uma carteira é oficial?

Apenas a carteira de estudante emitida pela Documento do Estudante é 100% confiável, pois é regulada pelas entidades estudantis nacionais. Para saber se ela é ou não oficial você deve ficar atento a alguns elementos externos da carteira e também a parâmetros tecnológicos.

A carteira deve atender aos critérios do ITI (Instituto Nacional de Tecnologia da Informação). que assegura a aplicação da certificação digital ICP-Brasil.

  • QR Code; que comprova a certificação digital do documento e pode ser lido pela instituição promotora do evento. É um sistema instituído pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação – ITI. Esse sistema se chama certificado de atributo.

Para conferir se a carteira é válida, você pode usar o aplicativo oficial chamado “Meia Entrada”, que vai escanear o QR-Code e conferir se ele é legítimo. (disponível para IOS, Android)

A carteira também precisa conter:

  • Trama anti scanner
  • Microletras
  • Logo das entidades estudantis encarregadas junto da assinatura de seus respectivos presidentes (as): UNE, UBES, ANPG

E os seguintes dados do usuário:

  • Foto do aluno
  • Nome completo
  • Número de RG e CPF impressos na carteirinha
  • Data de nascimento
  • Nome do curso e da instituição de ensino
  • Tarja magnética
  • Certificação Digital padrão ICP Brasil

Para ter sua carteira de estudante basta acessar o site oficial e solicitar a sua!

Positividade a todo custo: um tóxico disfarçado

Nós somos um emaranhado de circunstâncias: mentais, psicológicas, espirituais e físicas. Somos, em nós próprios, uma circunstância. Temos um ou mais papeis a desempenhar dentro de outras circunstâncias embaralhadas entre si. Estas, por sua vez, também dotadas de aspectos igualmente complexos.

Equilibrar cada uma das particularidades da conjuntura de elementos de que somos formados é, no mínimo, melindroso. Como sanar as dúvidas mentais se, simultaneamente, precisamos satisfazer carências psicológicas e compreender fatores espirituais enquanto provemos saúde ao nosso corpo físico?

Não espanta que, frente às circunstâncias que vivemos na atualidade – os controles exercidos através do medo – pareça difícil manter-se positivo em qualquer situação.

Você já se perguntou, no entanto, por que deveria manter a positividade sob qualquer condição?

Há muita distorção na disseminação das informações acerca da elevação espiritual e das condições para que isso se torne possível. Se você está nesse caminho, não por acaso está lendo este texto.

O chamado ‘movimento nova era’, segundo fontes confiáveis, constitui um mecanismo de controle mental disfarçado. Esse movimento prega que o seu pensamento deve se manter positivo e que, para todos os fins, basta praticar meditações, yoga e se alimentar de maneira saudável.

“Seja sempre positivo, não demonstre raiva, deixe tudo fluir, nada de mau vai acontecer” – essas são algumas das mensagens que o movimento nova era emana. Contudo, a vida, em seu sentido mais amplo, não é um ciclo tão frívolo que simplesmente se deva deixar acontecer.

É necessário agir, fazer escolhas e, dentro dessas escolhas, prezar pelo que é certo. Não basta que alimentemos cada aspecto de nossa constituição, enquanto seres, de positividade. Aliás, é impossível que isso aconteça de maneira constante.

Isso porque a ação necessariamente implica lidar com emoções, sofrimentos e o enfrentamento de medos. Como manter uma positividade utópica sob essas circunstâncias?

O movimento nova era impede as pessoas de agirem e participarem ativamente na transformação do mundo (e até mesmo de suas próprias vidas).

Explico: aceitar tudo o que a vida lhe oferecer é importante para que, a partir daí, você observe que ações te levaram para onde você está – lembrando que o pensamento em si já é uma ação. E se o nosso pensamento cria a realidade (o que é um fato), é quase óbvio que devemos pensar positivamente a todo o momento, certo?

Só que, sabendo que somos um emaranhado de circunstâncias vivendo em meio a outras circunstâncias emaranhadas, precisamos ter consciência de que para enfrentar cada fio desse emaranhado, é necessário ter seriedade.

A ilusão de que é possível enfrentar perdas, dores e dificuldades e manter-se positivo nos aprisiona: nos faz acreditar que todo o sofrimento é necessário, quando na verdade pode ser evitado por meio de atitudes assertivas.

Positividade é ação, não conformismo.

É preciso saber que o controle dos nossos pensamentos e ações pertence, estritamente, a nós mesmos – precisamos retomá-lo. A positividade é um, entre muitos aspectos dessa retomada de controle.

Algumas situações vão causar estresse, raiva, medo, insegurança, culpa. Estar no controle não significa não sentir, mas transcender esse sentimento; agir, ainda que assustado pelas sombras, e encontrar uma maneira de transmutá-las em luz.

Ser positivo é saber que, no final, tudo vai dar certo. Ainda que ocorram erros e ainda que enfrentemos sombras, ser positivo não é negar nenhum desses acontecimentos: é acolhê-los, admiti-los, e deixá-los nos ensinar.

Não precisamos abdicar de opiniões próprias para que sejamos observadores da realidade sem nos deixar ser controlados por ela; existe uma linha tênue entre ser um observador e deixar-se controlar pela negatividade.

Ter opinião acerca de um fato não implica, necessariamente, a perda do controle das emoções. Na verdade, é fundamental se posicionar e defender o que é certo quando você é um observador da realidade. É essencial saber que a realidade nem sempre é positiva.

Então, se queremos ser operadores de uma era realmente nova em que nós, humanos, vamos de fato ter a liberdade de exercer o controle sobre nós próprios, precisamos ser conscientes de que essa liberdade exige a responsabilidade de identificar o negativo e superá-lo, mas nunca negar sua existência.

AFOTS – uma nova forma de ativismo pelos animais + minha experiência

Recentemente, assistindo a um vídeo no canal do Vegano Vitor, conheci a hashtag #animalsfirstonthesecond, que em português seria “animais primeiro no segundo”, e faz referência a uma forma de ativismo, que é realizado no segundo dia de cada mês.

Resolvi aderir à proposta e vou contar um pouco sobre ela e sobre minha experiência.

O que é AFOTS?

AFOTS (animals first on the second) é uma campanha para empreender uma forma inovadora de ativismo em prol da abolição da exploração animal: no segundo dia de cada mês, os ativistas fazem um jejum de 24h, em que consomem apenas água ou líquidos não calóricos, homenageando os animais que, antes de serem assassinados nos matadouros, não recebem nenhum tipo de alimento.

#animalsfirstonthesecond

Os ativistas desenham sobre as costas da mão um símbolo formado por um círculo e colocam um X no centro, que simboliza um prato com os talheres cruzados, representando o ato de jejuar. Além disso, para promover a campanha, cada ativista posta uma foto nas redes sociais mostrando o símbolo, geralmente tapando a boca com a mão em que ele está desenhado, demonstrando o sofrimento silencioso dos animais abatidos.

Há quem diga tratar-se de uma modalidade muito radical de ativismo, no entanto, um jejum de 24h dificilmente (para pessoas saudáveis) vai causar malefícios – aliás, muito pelo contrário. Existem muitos estudos que comprovam os diversos benefícios do jejum, como você pode conferir aqui.

Não obstante, a exploração animal é – isso sim! – radical e desumana, enquanto o AFOTS propõe uma mensagem, ao mesmo tempo silenciosa e gritante, de compaixão e empatia pelos animais.

Eu, particularmente, acredito no Animals First on the Second porque ele não força interações entre ativistas e não ativistas; a ação desperta curiosidade e, justamente partindo desse ponto, os diálogos fluem naturalmente. Surge aí uma oportunidade para que os ativistas expliquem um pouco sobre especismo, vegetarianismo, veganismo e afins.

O gesto simbólico do jejum, além de homenagear a vida dos animais e entusiasmar o sentimento de empatia, propicia a disseminação de informação a todos aqueles que vierem a se interessar, voluntariamente, pela prática, que fica registrada nas redes sociais dos ativistas.

Minha experiência

Sou adepta à prática de jejuns há mais de um ano e, portanto, o jejum proposto pelo AFOTS não foi uma experiência nova no sentido físico. Ainda assim, com relação às sensações físicas, posso garantir que um jejum de 24h não é difícil de se fazer.

Para ajudar no processo, sempre procuro beber muita água, chás e café, assim distraio a mente das eventuais (e também passageiras) sensações de fome.

Utilizar o jejum para os fins propostos pelo AFOTS, contudo, proporcionou uma vivência muito especial: a cada vez que olhava para o símbolo desenhado em minha mão, lembrava-me do propósito daquela ação. Isso não só me deu mais motivação para as 24h de jejum, quanto me fez sentir de maneira intensa os meus “porquês”.

O cotidiano, abastado com as mesmices da rotina e, por vezes, amuado por dificuldades, causa um esquecimento, uma reprodução de hábitos desapaixonada, em que fazemos tudo no automático – até mesmo os jejuns – e descuidamo-nos dos motivos, da consciência na ação.

A experiência propociada pelo AFOTS me fez relembrar por que sou vegana e por que acredito no veganismo; lembrou-me, inclusive, de outras desigualdades quase tão cruéis quanto o especismo, a que muitos humanos são constantemente submetidos para sustentar violências estruturais reproduzidas em nossa sociedade; lembrou-me de quem sou e por que estou aqui – não é para desfrutar de prazeres tão passageiros quanto o sabor de um animal usado injustamente como ingrediente.

Toda a vivência foi válida e digna de se tornar um hábito, mas prefiro executá-la novamente como ação consciente, revisando minhas convicções e reconstruindo meus porquês.

Convido a todos para aderirem ao movimento no próximo dia 02 – independentemente do dia em que estiverem lendo isso.

Por fim, gostaria de declarar meu mais profundo respeito a todos os seres. Acredito no amor e em seu poder de cura – não há outro caminho que não seja o do amor. Amor e respeito aos processos e ao tempo de cada um de nós.

Considere o veganismo. Respeite o seu tempo. Mude para melhor, um pouquinho a cada dia.

Por que subestimamos o poder da meditação?

Antes de começar, esclareço que essa leitura não é para pessoas que buscam desculpas para não meditar ou que sequer têm interesse na prática, mas para aqueles que têm consciência de que são mais do que um corpo físico dotado de identidade, sexo e status social; é para quem se reconhece como um ser único em essência e, ao mesmo tempo, como parte indispensável do universo como um todo. Afinal é isso o que somos todos nós.

Não é novidade alguma que o ato de meditar é capaz de promover incontáveis benefícios à saúde, seja esta mental, física ou emocional. Muito embora, nos últimos anos, a meditação venha ganhando espaço no ocidente, ela ainda é amplamente descreditada pela maioria das pessoas.

Algumas das razões desse descrédito, presumo, sejam: 1) a simplicidade do método que, justamente por ser tão inteligível e acessível, contrapondo-se ao senso comum criado em torno da ciência e medicina – de que tudo deve ser moderno e tecnológico – acaba por gerar uma falta de confiança na prática e 2) em contradição à primeira razão, apesar de se tratar de um exercício simples, em teoria, as pessoas têm bastante resistência e dificuldade em meditar, porque não sabem como fazê-lo ou então porque não encontram resultados imediatos.

Apesar disso, há muito mais razões para que você insista na prática da meditação do que para desistir ou não se importar com ela. Minha missão é desmistificar algumas noções e simplificar o que é meditação, como e por que meditar.

O que é meditação?

“Dizer alguma coisa sobre meditação é uma contradição. Meditação é algo que você pode ter, que você pode ser, mas por sua própria natureza não é possível dizer o que ela é. Ainda assim, diversos esforços foram feitos para falar sobre meditação. Se apenas um conhecimento fragmentado e parcial for possível a partir dessas tentativas, já é muito. Ainda que parcial, essa compreensão pode se tornar uma semente. Isto depende muito de como você ouvir: se apenas escutar as palavras, sem prestar atenção, então nem mesmo um fragmento chegará até você. Mas se você ouvir atentamente, compreenderá.” – Osho

 

Osho aduz que não se pode delinear o que é a meditação, uma vez que tentar defini-la seria contraditório: por vezes a meditação é compreendida como um estado de concentração absoluto, entretanto, como o autor esclarece em “Aprendendo a silenciar a mente”, a concentração não é um estado meramente mental.

O ato de meditar transcende os limites da mente, criando um estado que, “em sânscrito, é chamado Dhyana. Enquanto a concentração nos permite focar a atenção a um objeto determinado e, a partir da observação, compreender seus aspectos fundamentais, o dhyana nos permite penetrar em nossa própria essência, observando o que realmente somos”.

Uma das definições que mais me ajudou a compreender de maneira palpável os aspectos, até então, abstratos da meditação, foi dada por Eckhart Tolle quando ele explica que a meditar é estar presente no Agora, entendendo que só o Agora existe e que, portanto, é sempre agora.

Ao atingir o estado meditativo – o que pode demorar algumas tentativas – você vai literalmente sentir o que é meditar. Você vai adentrar um estado de tranquilidade em que, mesmo calmo, estará consciente e atento ao momento, percebendo todas as sensações físicas do seu corpo ao mesmo tempo em que elas perdem a importância; sentindo toda e qualquer alteração no seu estado emocional; compreendendo e transmutando cada sombra em luz.

Você pode aprender a meditar acessando este post!

Benefícios da meditação

Imunidade

Nosso sistema imunológico responde aos nossos pensamentos. Uma pessoa que pensa coisas positivas em relação ao seu corpo e à sua saúde, portanto, tem uma correspondência física positiva.

A meditação desenvolve uma atmosfera mental positiva, ambiente que possibilita o aumento da imunidade por meio dessas correspondências do sistema imunológico com a mente.

A universidade da califórnia, UCLA, pucblicou um estudo que analisou pacientes com HIV (positivo). A pesquisa concluiu que os pacientes que praticavam meditação tiveram uma diminuição na redução de células CD-4 (células do sistema imunológico associadas ao impedimento da propagação do vírus).

Meditar estimula as regiões cerebrais responsáveis pelo funcionamento do sistema imunológico, como o córtex pré-frontal, a ínsula anterior direita e o hipocampo direito – áreas que controlam emoções, a atenção e a ansiedade.

Redução do estresse e da ansiedade

Um estudo chamado “Como a meditação reduz a ansiedade a um nível neutro?” concluiu que a meditação pode, de maneira significante, reduzir a ansiedade e a depressão em pacientes que apresentem esses prognósticos. Segundo Fadel Zeidan, Ph.D em neurobiologia e anatomia:

“Os resultados deste experimento de neuroimagem complementam o crescente conhecimento sobre os benefícios do treinamento da atenção plena, demonstrando alívio relacionado à meditação em pessoas saudáveis”.

Zeidan ainda explica que são necessários poucos minutos por dia para atingir uma neutralidade em relação aos sintomas de depressão e ansiedade.

O mal do século, segundo um professor incrível com quem tive a oportunidade de cursar hipnoterapia objetiva, Elias Lins, é a ansiedade. Se introduzirmos a cultura da meditação às nossas crenças e à nossa medicina, todo o dinheiro, o tempo e a vida desperdiçados em medicamentos que, além de não curar a depressão e a ansiedade, ainda as pioram, podem ser investidos no que realmente é importante para cada um de nós.

Maior foco e concentração

De acordo com os estudos de Pangoni, a meditação dá maior estabilidade mental aos praticantes do que os níveis de que pessoas não praticantes, em geral, dispõem.

Para atingir esses resultados, Pangoni observou e comparou dois grupos de pessoas: um grupo formado por indivíduos que meditam regularmente e o outro por pessoas que nunca meditaram. Ambos os grupos dispunham de participantes com o mesmo grau de escolaridade e idade.

Em termos mais “científicos”, os meditadores demonstraram possuir mais estabilidade em seu córtex póstero-medial ventral, região relacionada aos pensamentos espontâneos. Essa estabilidade ajuda a lidar com os pensamentos aleatórios e até mesmo indesejados que surgem em momentos que demandam concentração.

Resiliência para atuar diante das dificuldades

A resiliência é a capacidade de agir nas situações difíceis, mantendo-se firme em relação a propósitos e valores. Muitas vezes, diante de dificuldades, nos vitimizamos ou nos enfurecemos quase que automaticamente, e a meditação nos dá, justamente, uma ou várias perspectivas novas sobre os problemas.

Por meio da prática meditativa, adquirimos a curto, médio e longo prazo, a capacidade de observar cada situação com calma. Por experiência própria, posso dizer que desde que comecei a meditar, tenho me portado cada vez melhor diante das adversidades.

É claro que, muitas vezes, será inevitável sentir-se bravo, triste ou eufórico, e não há nada de errado com isso. O papel da meditação não é impedir os sentimentos, mas simplesmente nos permitir atuar conscientemente mesmo em meio a emoções.

Desenvolvimento da compaixão

O mundo inteiro precisa de mais compaixão – urgentemente. Mas uma coisa muito importante que aprendi é que jamais vamos mudar o mundo sem mudar, primeiro, a nós mesmos.

Embora possamos nos considerar pessoas humildes e solidárias, basta olhar para o nosso interior para perceber como, muitas vezes, deixamos o egoísmo ofuscar nossa compaixão. E isso acontece nas mais pequenas atitudes, que parecem nem importar, mas importam.

Então realmente não adianta nada apontarmos o dedo para a falta de compaixão do outro. Temos que, ao contrário, desenvolver nossa própria compaixão e, a partir disso, acolher mais pessoas com esse sentimento.

Como a meditação modifica isso? Bem, segundo pesquisas realizadas por monges tibetanos (que acessei lendo “Meditar Transforma” – Amanda Dreher), a meditação suprime a atuação do córtex parietal, que é responsável pelo senso de individualidade.

Dessa forma, desconectamo-nos do ego e de suas armadilhas, dando espaço para que, em nosso interior, a compaixão – e todos os sentimentos dela decorrentes – cresçam e estejam mais presentes em nossas ações posteriores.

Por que o ocidente subestima as práticas meditativas?

Em muitas regiões, no oriente, a meditação faz parte da cultura dos povos. Por que, no ocidente, essa cultura ainda não atingiu a grande maioria da população? Sendo uma prática simples e comprovadamente eficaz, por que ainda descreditamos a meditação para solucionar nossos problemas?

Começando pelas tradições, o ocidente se porta de maneira muito diferente, e isso inclui a alimentação, as religiões e os costumes. Por muito tempo, não tivemos amplo acesso a esse tipo de conteúdo e nem credibilizamos a meditação, porque os povos ocidentais foram quase sempre motivados por razões diferentes das orientais.

Enquanto os povos orientais valorizam a espiritualidade, os ocidentais agem mais racionalmente, tendo como o cerne de suas preocupações aspectos econômicos e sociais. Isso não ocorre desde o início dos tempos. Essa cultura foi largamente incentivada pelas colonizações (exploração, genocídio e tantas outras atrocidades), quando muitas culturas foram dizimadas para atender padrões criados pelos homens e, mais tarde, por conteúdos disseminados pelos mais diversos veículos de comunicação.

Descreditamos a meditação porque ela não faz parte da ideia que construímos sobre desenvolvimento: meditar é simples! E o ocidente procura um certo tipo de luxo, que na realidade é apenas ilusório.

A cultura ocidental se preocupa com ciência e modernidade. Ocorre que, sem que se perceba, vivemos em um círculo vicioso em que surgem doenças, são desenvolvidos medicamentos, são vendidas essas soluções mas, esses mesmos medicamentos causam outras doenças, para as quais precisamos de novos medicamentos.

Isso não se aplica somente à medicina, visto que constantemente precisamos comprar coisas para solucionar problemas (ou tapar buracos?) que não existiam antes. A cultura ocidental está perigosamente contaminada pelo ego, e é por isso que precisamos tanto da meditação!

Todos os inventos ocidentais servem tanto para propósitos bons quanto para os maus: a energia nuclear, que pode ser usada para gerar progressos, foi utilizada para dizimar populações; as pesquisas científicas são financiadas para gerar os resultados esperados; o meio ambiente é destruído para gerar lucro…

De que nos serve toda a inteligência e racionalidade se não somos capazes de compreender a nós mesmos?

Meditar é reencontrar a nossa essência, mais do que adquirir qualquer benefício mental ou físico. E o ocidente não vê a importância disso – ou, talvez, tenha medo das sombras que pode encontrar dentro de si.

 

 

Como aprendi a meditar – aprenda com 7 passos simples

Experiência pessoal

A meditação vinha se insinuando, invadindo minha percepção através de livros, conversas e “coincidências”, desde os meus 11 anos de idade. Qualquer caminho que escolhesse me levava a ela. Foi apenas com 21 anos, no entanto, que eu compreendi o que é meditar.

Já meditava há muito tempo – antes mesmo dos 11 anos – sem saber que o fazia. Ficava horas encolhida no chão do meu quarto, sozinha, fazendo qualquer coisa que prendesse minha atenção enquanto minha mente (aquela vozinha mais baixa e traiçoeira) ia desvanecendo, se apagando.

Quando tentava meditar propositalmente, por outro lado, minha mente se mostrava mais acordada do que nunca. E durante 10 anos eu tentei meditar, sempre desistindo momentos depois de começar, por uma única e simples razão: eu acreditei num conceito errado, ou no mínimo raso, de meditação.

Meditação não tem conceito

Não se pode resumir em um conceito, uma frase ou sequer num texto; a meditação é mais sobre sentir mesmo. Acontece que eu lia repetidamente  que meditar era não pensar em nada e encontrar a paz interior.

Tentava não pensar, mas me parecia que a cada tentativa, mais eu pensava. Assim vivi por 10 anos: intercalando os momentos de interesse e desinteresse pela meditação, quando, finalmente, através de mais “coincidências”, a resposta para os meus anseios escancarou-se aos meus olhos.

Meditar é estar tão profundamente concentrado no momento presente e em si mesmo, a ponto de quaisquer armadilhas egóicas ou impulsos da mente não mais terem importância; é sentir a Unidade em si – somos todos manifestações de uma única força.

Como, no entanto, chegar ao ponto em que o pensar torna-se diminuto e dá lugar ao sentir? Depois de muitas leituras – e de ainda mais tentativas – eu me adaptei a uma forma particular de atingir o estado meditativo, que consiste em 7 estágios. Repeti, dia após dia, essa sequência, até que corpo e mente se adaptaram à prática. Meditar não é difícil, embora exija persistência.

Leituras realizadas

Muito embora meditar seja mais sobre prática do que sobre teoria, encontrar materiais de apoio é, na minha opinião, de grande ajuda. Além disso, por meio da leitura a meditação perde um pouco do seu caráter abstrato – que foi justamente o problema que enfrentei ao pensar que meditar era simplesmente não pensar em nada.

Alguns dos livros que li e que indico para quem procura saber mais sobre meditação são:

Meditar Transforma – Amanda Dreher

Aprendendo a silenciar a mente – Osho

Carta ao meditador iniciante – Sally Kempton

O poder do silêncio – Eckhartt Tolle

7 passos para meditar

Passo 1: postura

A meditação, além de proporcionar tranquilização à mente e ao corpo, é um trabalho energético: os chakras do corpo humano têm centros de entrada e saída de energia, por onde a energia vital flui e é revitalizada durante a prática meditativa.

Para que esse trabalho seja bem sucedido, é necessário estar com a coluna alinhada e na posição vertical (por isso é preciso meditar sentado). Mas você não precisa, já de cara, sentar-se como um monge.

Utilize acessórios que o ajudem a manter a coluna reta. Você pode meditar sentado confortavelmente em uma cadeira ou, se preferir, pode sentar no chão e apoiar as costas na parede, utilizando também almofadas ou uma esteira para dar maior suporte e conforto ao quadril.

Passo 2: respiração e foco

O estado meditativo, em sânscrito, é chamado Dhyana. Essa palavra não tem uma tradução exata para o português e, como o próprio Osho cita em “Aprendendo a silenciar a mente”, esse estado é comumente confundido com “concentração”. Meditar não é tão somente se concentrar, trata-se de um estado ainda mais profundo. Não obstante, é através da concentração – do foco – que se alcança Dhyana.

É muito importante que você se concentre na sua respiração. Isso traz consciência ao corpo e eleva a consciência a um estado de calma-alerta (expressão utilizada por Eckartt Tolle). Respire profundamente, com calma, até sentir-se mais tranquilo. Uma técnica que uso com frequência é inspirar o ar e repetir mentalmente que, ao inspirar, absorvo a calma e, ao expirar, solto qualquer tensão ou nervosismo presente no meu corpo.

Funciona mais ou menos assim

INSPIRO – “absorvo a calma”

EXPIRO – “solto toda a tensão”

Repito esse processo até que eu me sinta realmente tranquila e esteja presente no momento, sem deixar a mente me atrapalhar com pensamentos sobre o que tenho que fazer depois ou coisas do tipo.

Depois de um tempo, já calma e em meditação, deixo a respiração fluir naturalmente, sem me preocupar se estou respirando lenta ou rapidamente. Mas a atenção à respiração está sempre (ou quase sempre) presente, porque a respiração é o meio pelo qual flui (incessantemente, mesmo quando não estamos meditando) a nossa energia vital (Prana).

Passo 3: mantras

Depois de meditar por muito tempo, atingir o estado meditativo ocorre naturalmente, sem que seja necessário repetir mantras ou ouvir meditação guiada. Até isso acontecer, no entanto, uma das formas mais eficientes e benéficas que encontrei para “desligar” a constante conversa mental foi repetir mantras mentalmente.

Um mantra é uma espécie de “cântico”, uma sílaba ou verso que é repetido. Você pode repetir mantras hindus ou até mesmo repetir alguma frase com que se identifique e sobre algo que queira atrair para a sua vida.

O mantra correto possui uma sensação de conforto que nos permite facilmente focar no interior (…) o mais conhecido de todos é o Om – Sally Kempton

Você pode colocar um mantra nos fones de ouvido, ouvindo alguém repeti-lo, e pode também repetir sozinho. Por exemplo: “eu sou uma pessoa calma, tranquila e focada”. Enfim, você pode criar um mantra que se encaixe com aquilo que deseja atrair – o importante é (1) acreditar nele e (2) dizê-lo como algo já conquistado.

Passo 4 – volte sua atenção a um ponto específico

Esse passo é uma alternativa ao passo anterior. Você pode, ao invés de utilizar mantras, prestar atenção em um ponto central do seu corpo, como o seu coração ou o terceiro olho (no centro da testa).

Eu faço muito isso, depois do foco na respiração. Presto atenção naquele local e percebo, com os sentidos, como ele está se “comportando”. Quando minha atenção se volta ao coração, é comum eu sentir e imaginar uma luz sendo irradiada por ele – deixo que minha intuição dê cor a essa luz por meio da imaginação.

Quando volto a atenção para o terceiro olho, geralmente meus olhos, ainda que fechados, se voltam também para esse ponto, de modo que eu “enxergue” luzes, cores, mandalas e afins. Também nesses casos deixo que minha intuição (através da imaginação) atue livremente – não dito cores nem formas.

Passo 5 – como lidar com distrações

Eventualmente, você pode ser incomodado por algumas distrações. Barulhos, coceiras e desconforto são comuns especialmente para quem está iniciando. Quando isso acontecer, mesmo que você pareça sair do estado meditativo, não desista da meditação nesse momento.

Tudo o que você tem que fazer é voltar novamente ao passo 2: mantenha o foco na respiração até que você esteja novamente tranquilo e possa prosseguir.

Se pensamentos negativos ou que gerem ansiedade comecem a aparecer, não se apresse em “não pensa-los”, apenas observe eles (e observe também as sensações com que seu corpo reage a eles), deixando-os partir logo em seguida. Não se apegue a eles e não os alimente. Simples assim.

Passo 6 – mergulhe no seu interior

Uma vez que você empreendeu seus esforços em cada um dos passos anteriores, a conexão com o seu eu interior será uma simples, pura e inevitável consequência. Nesse estágio, você não precisa se preocupar em pensar no que “precisa ser curado”, porque o seu subconsciente estará fazendo esse trabalho por conta própria.

Ainda que tudo o que você imagine pareça sem sentido, ou mesmo que você não imagine nada, suas ondas cerebrais já estarão fazendo o trabalho de reprogramar a sua mente, livrando-a de pensamentos negativos e padrões nocivos.

Passo 7 – prática consistente, regular e persistente

Talvez as primeiras tentativas sejam um pouco frustrantes, não por serem difíceis, mas por serem estranhas aos seus costumes. Mas não desista! A meditação tem tantos benefícios para o corpo e a mente, que desistir dela nem deveria ser uma opção.

Lembre-se de que você tem o seu tempo, e não há prazo para que você aprenda a meditar. Tudo o que a meditação vai exigir de você é persistência: pratique todos os dias, por 5 minutos que seja.

E sempre que quiser ou precisar de um auxílio, você pode me contatar pelo e-mail do blog ou até pelas minhas redes sociais. Ficarei muito feliz em contribuir! Não hesite em me chamar.

Comenta aí se tiver contribuições ou dúvidas.

Vamos meditar! <3

Essencialismo: 6 passos para aumentar a sua produtividade

Um dos maiores desafios que enfrentamos atualmente é a administração do nosso tempo: muitas coisas acontecem de modo muito rápido e concomitantemente; pode ser muito difícil conciliar todas as atividades que você precisa (ou acha que precisa) desempenhar com o tempo que você tem.

Não raro, nos sentimos, ao mesmo tempo, excessivamente atarefados e improdutivos. Isso porque estar ocupado não é, necessariamente, sinônimo de ser produtivo. De modo geral, aliás, assumir mais compromissos do que estamos realmente aptos ou dispostos a atender, justamente nos torna ineficientes e frustrados.

A chamada “lei do maior esforço” é altamente valorizada (e talvez até um pouco distorcida), especialmente nos ambientes profissional e estudantil. Acontece que não é uma verdade absoluta que aquele cujos esforços forem maiores, terá maior êxito.  Em realidade, o êxito depende de uma série de fatores, como o foco, a disciplina, a consistência e, principalmente, a escolha.

Nesse sentido, o minimalismo ou essencialismo (termo utilizado por Greg McKeown em sua obra “Essencialismo – a disciplinada busca por menos”) proporciona um entendimento bastante peculiar: para obter mais, faça menos. Isto é, para que os esforços empreendidos gerem resultados efetivos, direcione-os ao essencial, a fim de que preciosidades como o tempo, o dinheiro e a energia vital não sejam despendidos arbitrariamente.

Após a leitura do livro de Greg McKeown, decidi transcrever 6 passos indispensáveis para gerar mais produtividade por meio do minimalismo.

1 – estabelecer um objetivo

Lendo uma das obras de Mario Sergio Cortella, me deparo com a seguinte proposição: “prioridade é uma palavra sem plural”. A reação imediata foi pensar que se tratava de uma brincadeira, afinal “prioridades” é um plural bastante utilizado. No entanto, o autor explica que, ao colocar um “s” na palavra prioridade, esta perde sua prevalência, porque deixa de ser o empreendimento principal, e passa a ser apenas mais um empreendimento.

Uma das ações principais para que você consiga ter um bom rendimento por meio de comportamentos essencialistas é justamente esse: estabeleça a sua prioridade – sem plural. Tenha um objetivo em mente, seja esse a curto, médio ou longo prazo. Isso possibilita que você tenha mais clareza sobre que atitudes tomar para atingir essa meta.

É claro que nem sempre é fácil escolher uma, dentre tantas coisas importantes, mas a escolha é uma etapa fundamental para que todas as ações posteriores sejam realizadas a fim de alcançar o objetivo final.

Se você tem dúvidas a respeito de duas ou mais possibilidades, o melhor conselho que posso oferecer é: use a sua intuição. A intuição é uma espécie de impulso – mas que nem sempre aparece de imediato – e é resultado da nossa memória quântica (sim, quântica de física quântica mesmo).

Existem muitas formas de desenvolver a intuição. Uma prática de que sou adepta é escrever (ou até mesmo imaginar a palavra escrita) todas as possibilidades e colocá-las à minha frente. Fico observando até que uma das palavras “prenda” a minha atenção. Essa sempre é a escolha certa.

2 – eliminar tarefas, compromissos e ações que não se encaixam com o seu objetivo

É recorrente nos comprometermos com algumas coisas sem realmente querer participar delas. Encontros com pessoas de quem não gostamos, eventos nos quais não nos sentimos confortáveis ou felizes ou mesmo trabalhos que não queremos realizar.

É claro que, em se tratando de trabalho, existem situações de que dificilmente conseguiremos escapar por simplesmente não querer. Embora todo trabalho ou emprego tenha algum aspecto negativo, no entanto, é sempre bom avaliar se esse aspecto não está se sobrepondo aos pontos positivos desse trabalho.

Nem todo mundo tem o privilégio de poder trabalhar com o que ama, e isso infelizmente é verdade. A muitas pessoas, sequer são apresentadas outras perspectivas que não aquelas em que elas trabalham ou vivem e, por isso, pode ser mais difícil encontrar um espaço para fazer somente o que se gosta.

Eu, por exemplo, trabalhei como professora de inglês durante 2 anos. Gostei muito de dar aula para algumas turmas, para outras, nem tanto. Mas trabalhei estritamente por necessidade. No segundo ano, contudo, percebendo que não era exatamente o que eu queria para a minha vida, me dediquei nas horas vagas (ou melhor: das 5 às 8 de cada manhã) a estudar aquilo que eu realmente amo. E além de trabalho e estudos, eu ainda fazia faculdade.

Para otimizar meu tempo, além de começar a acordar mais cedo, também “deixei” de atender a vários “compromissos”. Não participava de nada que não me interessasse realmente ou que não fosse obrigatório.

Eliminando todas as tarefas de que não precisava para o crescimento intelectual que eu buscava (e ainda busco), consegui, em meio ano, aprender um novo idioma, aprender a fazer yoga e dar início ao meu projeto de vida. Ser uma pessoa privilegiada com certeza ajudou muito, mas tenho certeza de que todas as pessoas podem se direcionar àquilo que amam se tiverem persistência.

3 – eliminar distrações

Distrações são todas as coisas que comprometem o foco. Elas podem estar presentes no ambiente de trabalho, criação ou estudo, como podem ser situações à parte, que acabam comprometendo a produtividade indiretamente.

Atualmente, o maior desafio que temos de enfrentar em termos de distração é o celular, e digo isso com (in)tranquilidade. A todo o momento, impulsivamente, checamos o celular e com muita facilidade nos perdemos nas redes sociais. Mesmo quando só damos uma rápida olhada no feed ou nas notificações, estamos perdendo tempo.

Além do efeito psicológico causado pelos smartphones e seu sistema de recompensa, as ondas eletromagnéticas emitidas por esses aparelhos podem interferir na nossa concentração e até mesmo na saúde.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Chicago concluiu que a mera presença do smartphone perto da pessoa é capaz de reduzir sua capacidade cognitiva. O estudo, embora reconheça muitos benefícios práticos dos smartphones, sugere que esses mesmos benefícios custam habilidades cognitivas.

4 – manter-se organizado

A organização, tanto do ambiente de trabalho ou estudo quanto da mente, facilita todo o processo de produtividade, porque (1) num ambiente confortavelmente organizado você não precisa se preocupar com objetos e afazeres que, de cima da mesa ou do chão, insinuam que você precisa recolhê-los, completá-los ou lembram outras coisas que você deveria ter feito e ainda não fez e (2) uma mente organizada e ciente do que está fazendo no Agora é uma mente mais concentrada e tranquila, que não se deixa tomar pela ansiedade do que ainda tem que ser feito.

Para manter o ambiente organizado, eu utilizo uma única regra: guardar todas as coisas nos seus devidos lugares assim que eu terminar de utilizá-las. Isso evita que a acumulação de objetos em lugares inapropriados que, eventualmente, causariam ansiedade.

Organizar a mente exige, no meu ponto de vista, um pouco mais de esforço, porque é necessário avaliar e mudar hábitos que, muito provavelmente, temos há muito tempo. Para manter a minha mente calma, de modo que eu consiga me concentrar em uma tarefa por vez, eu utilizo um planner (uma agenda ou caderno também serve), onde anoto todas as tarefas que preciso terminar até o final de cada dia, semana e mês.

Visualizar todas as minhas tarefas permite que eu estabeleça o horário mais adequado para realizar cada uma delas e, dessa forma, enquanto estou fazendo uma coisa, não fico pensando nas outras coisas que tenho para fazer, visto que cada uma já tem o horário prescrito – isso ajuda muito na concentração.

5 – terminar tudo o que começar

Outra coisa que eu faço para me manter organizada e sem a sensação de ansiedade causada pelas mil atribuições que, às vezes, são inevitáveis, é obedecer a uma lei básica que aprendi com o meu pai: termine tudo o que começar.

Mesmo que você tenha dado início a uma tarefa e, no meio do caminho, seja abatido pelo desânimo, seja persistente e termine, porque a satisfação de completar essa tarefa compensará – e muito –  o seu esforço. Você não vai precisar se preocupar com aquele afazer outra vez.

6 – escolha deliberadamente fazer menos

Precisamos fazer escolhas diariamente: o que comer, o que comprar, o que vestir… e não é muito comum escolhermos o que não comer, comprar ou vestir, porque, embora a gente passe o dia inteiro ocupado, é recorrente sentir-se improdutivo ao final do dia.

Isso acontece sobretudo porque não estamos fazendo o que queremos – e tampouco o que precisamos fazer. Passamos a maior parte do nosso dia fazendo coisas de que não gostamos, para agradar pessoas por quem não temos afeto, sempre colocando nossas paixões em segundo plano.

Escolher fazer menos indisciplinadamente é ser preguiçoso; é deixar que os outros decidam por você, o que causa um impacto extremamente negativo. Agora, escolher deliberadamente fazer menos em prol de um objetivo maior (e que atenda aos seus interesses) é ser inteligente.

Nossas escolhas devem ser ativas: precisamos nos impor perante as situações que a vida pessoal, o trabalho e os estudos nos apresentam. Ao escolher participar ou não de um grupo de estudos, por exemplo, você está determinando a importância desse estudo. Se ele for relevante para o que você QUER fazer, a decisão deve ser positiva, do contrário, você já sabe o que decidir.

Tenha em mente que as suas escolhas, muito mais do que o número de tarefas que você desempenha no dia a dia, determinam para onde você vai. Você pode ser um empregado altamente produtivo em uma loja de roupas, mas o que realmente queria estar fazendo é desenhar. Faça escolhas que abram os seus caminhos para a sua arte.

Enquanto não puder se manter trabalhando só com aquilo que você quer, saiba dosar o seu tempo: um pouco para o trabalho, um pouco para o seu aperfeiçoamento.

Ser um essencialista é focar a atenção e os esforços naquilo que nos leva ao nosso objetivo principal. Esse objetivo pode ser substituído por outro, ou outros, sempre que essa for a nossa vontade. O importante é escolher fazer menos do que não gostamos ou precisamos para, então, ter tempo e energia para ser e fazer o que gostamos e queremos.

 

 

Alimentação inconsciente: por que preferimos não saber o que estamos ingerindo?

A alimentação é uma preocupação constante: os tópicos de nutrição e boa forma física nunca saem de foco; o Instagram interrompe nosso feed para mostrar como as pessoas influentes se alimentam, se exercitam e cuidam da pele e, os anúncios, por toda a parte, nos incentivam a perder 5 quilos em milagrosos 7 dias por meio de dietas restritivas.

Existe uma cínica contradição que, no entanto, não ganha visibilidade. Os cuidados alimentares, embora obsessivamente preocupados com as calorias, são completamente desinteressados quando o assunto é a origem daquilo que se coloca no prato.

Vegetal ou animal, natural ou industrializado – enquanto estivermos perdendo peso ou adquirindo massa magra ou, ainda, obtendo prazer momentâneo, isso não importa. Esse afastamento apático entre as pessoas e a origem de seu alimento tem motivos furtivos e consequências graves.

Por que a origem daquilo que comemos perde a importância?

Talvez você já tenha sido indagado com relação a consumir ou não produtos de origem animal. Pessoas que consomem carne e derivados animais, geralmente têm uma abordagem debochada ou defensiva quando questionadas sobre o assunto.

“Eu sinto pena dos animais, mas não consigo parar de comer carne” – acho que essa é uma das frases que mais ouço quando numa argumentação pró-veganismo. Mas no momento em que as pessoas se deparam com o sofrimento enfrentado pelos animais que colocam em seus próprios pratos, a maioria delas tende a realmente se sensibilizar.

Por que, então, a discussão sobre a origem dos alimentos que consumimos é tão árdua e tão pouco valorizada? Por que preferimos não saber a origem do que estamos comendo?

É verdade que aquilo que é novo aos nossos olhos pode causar espanto ou deslumbramento. Frequentemente, contudo, a primeira reação é o espanto. Para uma população, como a brasileira, que se construiu, cultural e economicamente, em torno da carne, a ideia de não consumir derivados animais parece inaceitável.

Mesmo com a rápida e acessível difusão de estudos atestando que as dietas vegetariana e vegana, quando balanceadas, têm impactos muito positivos no corpo humano e, ainda que muitos benefícios de ordem econômica, psicológica e até mesmo de grande impacto ambiental podem ser atingidos através desse estilo de vida, as pessoas têm resistência para aceitar e ouvir sobre o tema.

A relutância para falar sobre o veganismo não provém de um impulso pessoal – pelo menos não apenas disso.

Nascemos e crescemos condicionados a determinados comportamentos e até mesmo pensamentos. A mídia e a cultura tradicional impõem certas “verdades” à nossa educação, que dificilmente são confrontadas, sobretudo porque são financiadas e sustentadas por grandes produtores… de carne!

Se estudássemos apenas aquilo que a televisão e os livros didáticos básicos colocam à nossa disposição, dificilmente compreenderíamos que é possível garantir uma alimentação completamente balanceada sem consumir proteína animal. Uma rápida pesquisa no Google, entretanto, é capaz de nos provar – com evidências científicas – que isso não é verdade.

Só que demonstrar isso para uma população já condicionada a esses entendimentos é uma tarefa árdua, que ocorre paulatinamente. O veganismo vem conquistando espaço, não por simplesmente ser efetivamente saudável e sustentável, mas porque muito ativismo é empreendido no sentido de conscientizar as pessoas.

Infelizmente, alguns indivíduos realmente optam por abordagens arrogantes, o que acaba distanciando ainda mais as pessoas desse tópico. Apesar disso, a maioria das abordagens feitas pelos ativistas não chega a ser arrogante ou agressiva – muito pelo contrário, são sensatas e respeitosas.

O que acontece é que o condicionamento em massa cumpre o seu papel: a resistência ao movimento já é tão ampla, dilatada pela propaganda e por estudos comprados, que a reação à introdução do tema, ainda que realizada por meio de uma abordagem passiva e descontraída, tende a ser hostil.

Dessa forma, saber que origem têm os alimentos que ingerimos vai perdendo a importância, primeiramente porque está mascarado pelo “sabor”, pela propaganda ou pela ilusão de higiene causada pela industrialização e, em segundo lugar, porque as pessoas não se dispõem a discutir ou sequer a pensar sobre o assunto.

A diferença entre hábitos e comportamentos conscientes – e porque isso é importante

É verdade que existem muitos hábitos que geram saúde e bem-estar e, por isso, são comportamentos benéficos para se adotar e manter no dia a dia. Apesar disso, todo hábito é uma ação que já não mais é pensada, ou seja, trata-se de uma ação que já faz parte da nossa programação mental.

Hábitos são ações inconscientes.

Dito isso, é importante destacar que tudo aquilo que fazemos de maneira inconsciente, ainda que benéfico, merece ser reavaliado constantemente. Ao deparar-se com um comportamento habitual, qualquer que seja, pergunte-se por que você realiza essa ação.

Você acorda cedo ou tarde? Por quê? Toma café da manhã? Por quê? Faz exercícios físicos? Por quê?

É provável que você tenha razões óbvias para cada um desses hábitos (ou para a falta deles), mas continue perguntando por que, até decifrar cada estímulo e cada impulso que vem a, então, justificar os seus hábitos.

Ações conscientes, por sua vez, são sempre pensadas – ou melhor, sentidas. São aquelas ações que desenvolvemos quando estamos presentes no agora, e que sabemos exatamente que consequências podem gerar.

É importante distinguir esses dois tipos de comportamento, porque o que quero mostrar é o seguinte: aquilo que você come ou deixa de comer, provavelmente faz parte da sua programação e, portanto, trata-se de um hábito – uma ação inconsciente.

Não consumir produtos de origem animal é uma escolha, uma ação consciente que, com o tempo, transforma-se em hábito. A habitualidade não necessariamente faz de um comportamento nocivo, conforme dito anteriormente.

A chave aqui é reavaliar os hábitos, tanto os bons quanto os ruins. Esse é um exercício constante, que depende da nossa própria vontade. Mesmo pessoas que têm hábitos majoritariamente saudáveis podem perceber que muitos deles já não servem mais, por não mais compactuarem com seus objetivos de vida ou com as possibilidades do momento.

É claro que isso não diz respeito somente à alimentação, no entanto, a alimentação tem caráter essencial para todos nós e, por isso, comer de modo consciente, por si só, já é uma revolução completa.

Conscientemente, sabendo da origem de cada item do seu prato, você opta nutrir o seu corpo com o quê? Ou com quem?

 

Nutrição e alimentação VEG sem mimimi

Bom dia, boa tarde, boa noite! O tema nutrição e alimentação vegana e vegetariana é amplamente discutido (e divergente), variando entre opiniões fundamentadas em ciência e outras na indústria. Justamente diante dessa discrepância, hoje conto com a ajuda da Bruna Endl Bilibio, uma das nutricionistas do Nutrição Sem Mimimi, para desmistificar muitas das questões relacionadas à alimentação VEG e seu valor nutricioinal.

É claro que o veganismo supera as questões nutricionais, visto tratar-se de uma ideologia, no entanto, acho muito importante conhecer, também, dessas questões, inclusive para que as práticas veganas, no que concerne à alimentação, sejam sustentáveis.

Escolhas para além do ser VEG

Pense que você é um escultor e irá trabalhar com argila. Todo toque, cobertura, detalhe é o que irá definir sua obra final. Mesmo inconscientemente, você passará grande parte do tempo cuidando desses detalhes para dar qualidade à sua obra, sendo que, cada minúsculo item será parte de sua escultura; você poderá incrementá-la com as melhores matérias primas, assim como as que não são tão boas assim.

Do mesmo modo que a construção de uma escultura, nossas escolhas alimentares determinam nosso estilo de vida e o tipo de longevidade que teremos. Essa afirmação vale pra todas as alimentações, inclusive VEGs (vegetariana e vegena).

Eu poderia citar aqui uma imensidão de estudos que comprovam as vantagens de uma alimentação VEG, benefícios na saúde cardiovascular e cerebral, manutenção do peso, diminuição/e ou controle de fatores de risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis – DCNT (hiperglicemia, resistência insulina, dislipidemias – hipertrigliceridemia, hipercolesterolemia, LDL aumentado HDL diminuído, sobrepeso, obesidade, excesso de circunferência abdominal, etc.) mas essa não será exatamente a pauta desse texto.

É evidente que uma alimentação tendo como base alimentos in natura e minimamente processados somente agrega na saúde das pessoas, ainda mais quando esses alimentos são de fontes sustentáveis. A alimentação VEG tem atraindo um número cada vez maior de seguidores desse padrão alimentar, por questões de respeito ao meio ambiente, benefícios à saúde e filosóficas.

Esse padrão alimentar, entretanto, como é pouco compreendido pela sociedade no geral, e é cheio de mitos e falácias. Meu objetivo aqui, além de dizer que precisamos muito respeitar as escolhas alimentares de cada um – assim como incentivar uma alimentação saudável dentro dessa escolha- é de modo breve, explicar algumas coisas para você que escolheu seguir essa corrente, assim como quem não a segue, a fim de ter argumentos para desmistificar esse tantos e inúmeros mitos envoltos à mesma.

Todos nossos nutrientes provém do que encontramos na terra. Sem exceção. Assim como Carl Segan dizia que “somos feitos de poeira intraestelar” isso pode ser atrelado à nossa composição bioquímica e composição alimentar (ao menos deveria).

Vegetais, legumes, verduras, que aqui chamarei carinhosamente de GREEN, são fontes de proteínas, carboidratos, lipídios, fotoquímicos e outros micronutrientes, minerais e vitaminas.

Esses nutrientes são parte de sua estrutura e metabolismo celular  Assim com o tio Segan falava das estrelas… bom, somos constituídos de nutrientes intra espécies, ou seja,
uma alimentação somente com GREENs pode sim suprimir nossa necessidades
nutricionais.

É claro que, mesmo compartilhando de estruturas bioquímicas semelhantes, o teor de cada nutriente nos VEGs e nos alimentos de origem animal é diferente. Por isso, a primeira dica para uma alimentação saudável é diversidade – e isso vale para qualquer pessoa.

Para uma alimentação diversificada, é preciso saber dar prioridade para o que é
realmente necessário e saudável, além de conhecer os grupos alimentares dos quais se pode consumir.

Grupos alimentares

Os grupos alimentares podem ser divididos em: CEREAIS (arroz, milho, aveia, trigo,
centeio…), LEGUMINOSAS (soja, lentilha feijões, grão-de-bico.. ) OLEAGINOSAS
(amendoim, nozes, castanhas, girassol, gergelim, linhaça etc). AMILÁCEOS
(mandioca, batatas, inhame etc), LEGUMES (pimentão, chuchu, abobora, cogumelos
etc.), VERDURAS – (alface, agrião, rúcula, couve, brócolis) FRUTAS, (maçã, banana,
laranja, bergamota, uva, melancia etc.) e ÓLEOS ( azeite de oliva, óleo de soja,
girassol, etc.).

O que torna uma alimentação rica em vitaminas e minerais é a combinação desses grupos em uma quantidade adequada. Devemos ter um cuidado especial para equilibrar essas fontes de nutrientes. Friso aqui, que toda alimentação deve incluir alimentos que contenham uma boa quantidade e qualidade de proteínas e gorduras, ferro, cálcio e cobalamina (vitamina B12) assim como vitamina D, já que com uma alimentação bem planejada todas as necessidades nutricionais podem ser supridas.

Algo que acontece bastante é que muitos, ao aderirem uma alimentação VEG, tornam a base de sua alimentação carboidratos refinados (como açúcares, pães e massas), processados (alimentos em calda, geleias, conservas), ultraprocessados (produtos alimentares oriundos da indústria, salgadinhos, bolachas/biscoitos recheados, sucos de pacotinho, temperos industrializados) e também fast foods, cheias de gorduras não saudáveis além de excesso de sódio, acidulantes, etc. Assim, não sobre espaço para os alimentos que devem realmente ser a base de uma alimentação saudável (alimentos in natura e minimamente processados).

Nesse ponto, eu até questiono: pense que não é somente a produção de animais e uso destes para o consumo que maltrata o meio ambiente. Já pensou o quanto se usa de
combustíveis fosseis para um industrializado chegar a prateleira de seu mercado? E
o seu custo barateado é por qual motivo?

Sobre proteínas

TODO aminoácido essencial ( que são os amigos que formam as proteínas) estão presentes no reino vegetal, em ótima quantia! Para que se tenha uma boa biodisponibilidade e consumi-los no montante necessário, é preciso comer,
diariamente, cereais e leguminosas, que são os grupos de principal oferta desses nutrientes em uma alimentação VEG.

É necessário ressaltar que o nosso corpo não estoca proteínas, por isso do consumo adequado diariamente! (turn over proteico estrutural é uma coisa, lembre-se que as proteínas são utilizadas como fontes energéticas quando suas outras funções já foram realizadas).

As recomendações nutricionais sugerem que, em média, a ingestão de um ser adulto saudável, sem patologias ou necessidades aumentadas (atletas, por exemplo) deve ser em torno de 0, 75 – 1,0 g/ptn por kg de peso, ou seja… se eu peso 65 kg, devo consumir diariamente 65 g de proteína, em média.

Não é uma quantidade absurda para ninguém, inclusive para os adeptos a uma alimentação VEG.

Sobre ferro

O ferro é um dos nutrientes com maior índice de deficiência em muitos povos. O que eu preciso saber sobre ferro? Que ele não existe somente em carnes!

Há duas formas de ferro encontradas: o ferro heme e ferro não heme. O que difere é
que o ferro não heme é de fácil absorção intestinal, sendo que, por questões estruturais, o ferro não-heme possui uma biodisponibilidade menor, mas isso não o torna MENOS
IMPORTANTE que o outro.

O ferro não heme possui uma biodisponibilidade aumentada e melhorada quando combinado com o consumo de vitamina C na mesma refeição. A vitamina C (ácido
ascórbico) é aquela que podemos encontrar em frutas cítricas. Devo salientar
aqui que as deficiências de ferro quando diagnosticas não devem ser tratas com desdém,
a maioria requer acompanhamento médico e nutricional.

Existem alguns fatores que dificultam a biodisponibilidade do ferro, como o consumo de lacticínios, cafeína e ácido fítico. Deixo aqui minha fiel escudeira dica: Arroz integral (cereal) + feijão (leguminosa) + (fonte de vimaina C) suco de laranja ou limão (suco de verdade!) é a combinação mais top pra biodisponibilidade desse nutriente (assim como da proteína).

Sobre cálcio

Não é porque você não consome leite que não vai ter cálcio na sua alimentação! O cálcio está presente em vegetais verdes escuros. Mas preste atenção:  o excesso de sódio em uma dieta aumenta a excreção renal de cálcio.

Então de nada adianta consumir um monte de cálcio se o seu consumo de sódio for muito elevado (e isso inclui o sódio dos ultraprocessados).

Um bom metabolismo de cálcio é dependente da vitamina D, e para a vitamina D estar disponível, ela passa por etapas, sendo que uma delas, é na pele…  precisa do solzinho nosso de cada dia para ocorrer. Ou seja, é essencial se expor ao sol, de modo
consciente (sol da manhã e fim de tarde), por 5 minutos por dia, ou 15 min 3 vezes na
semana. Importante dizer que os fitatos e oxalatos dificultam a biodisponibilidade desse nutriente.

Sobre w-3

O w-3 e w-6 são gorduras que não são produzidas pelo nosso organismo. Ambos desempenham funções que auxiliam a saúde, todavia, não é necessário comer
carne de peixe para se obter w-3.

Linhaça semente e óleo, olés de canola e soja (prensados a frio e não refinados), nozes e abate são ótimas fontes!

Sobre vitamina B12 (cobalamina)

Essa senhora é uma vitamina que normalmente se encontra deficiente na população VEG. Cerca de 40% da população VEG da América Latina apresenta deficiência dessa vitamina (principalmente na forma de anemia perniciosa ou megaloblástica).

A B12 é uma vitamina hidrossolúvel essencial para o sistema nervoso, muscular e sanguíneo, assim como para o metabolismo celular. Por isso que é necessário se preocupar com ela.

A esse respeito, não é que não existam fontes vegetais que possam fornecer B12. O que acontece é que, ao contrário das outras vitaminas, ela somente é encontrada
em quantidades mais abundantes e biodisponiveis em alimentos de origem animal.

Sendo assim, os VEGs estritos possuem mais chances de apresentar essa deficiência. Para além de carne, ovos e laticínios, somente iremos encontrar fontes como alimentos
enriquecidos com essa vitamina ou suplementos da mesma. Algas e alimentos fermentados são análogas da B12, não sendo fontes confiáveis e realmente eficazes.

Todo mundo precisa suplementar? Não necessariamente. Normalmente criança,
gestantes, veg estritos e ovolacatos que não consomem muitas fontes devem ter um
cuidado especial. Para fazer essa suplementação, procure auxílio de um nutricionista ou médico nutrologo.

Atenção: A deficiência pode levar ao coma, depressão, distúrbios do sono e
dores articulares.

Para concluir, saliento que qualquer VEG deve entender que o Cálcio e Ferro competem pelo mesmo sítio absortivo, isso não significa que não se pode misturar alimentos fontes na mesma refeição, mas é necessário priorizar a oferta.

Priorize, por exemplo, o café da manhã e lanches como a fonte de principal de cálcio e o
almoço e o jantar como fonte de ferro.

Antes de consumir qualquer cereal ou leguminosas, deixe molho na água durante 12
horas, despreze essa água e assim prepare. Ou, cozinhe em panela de pressão por 30 minutos, despreze a água e cozinhe novamente para que os fatores antinutricionais (os moços que dificultam a biodisponibilidade, fitatos, oxalatos, etc) sejam eliminados das preparações.

Eu iniciei esse texto falando de escolhas. Pois bem: Escolha ser um VEG, mas escolha
ser saudável também! Detalhes no dia a dia moldam isso. Faça com que a escultura de
seu corpo e metabolismo não sofra as consequências de nenhum tipo de descuido.

O consumo em excesso de carboidratos refinados (açúcares e farinha branca),
gordura trans (hidrogenadas presentes em ultraprocessados) e sódio (presente no sal de
mesa e alimentos processados e ultraprocessados) é o que de fato está adoecendo toda a
população, independente da escolha de consumir fontes animais ou não.

Faça acompanhamento nutricional e médico, não deixe para depois, cultive isso entre suas amizades: respeite, além de sua linda escolha alimentar, sua saúde também!
Priorize alimentos in natura e minamente processados!

Lave e descasque mais, desembrulhe mesmo!
Descubra que é capaz de cozinhar!
Dê valor para o regional! Não precisa ser do mediterrâneo para ser saúdavel!
Dê valor as feirinhas de sua cidade, ao produtores locais!
Se descubra o único responsável pela sua saúde… e suas escolhas!
Ame o que você faz e faça com amor!
A alimentação é complexa mas não é motivo para entrar na onda de terrorismo
nutricional! Zele por aquilo que acredita ao fazer suas escolhas alimentares diárias
também!

Sugestões de leitura: O Dilema do Onívoro e Em Defesa da Comida, de Michael Pollan.
Publicações e páginas da Sociedade Vegetariana Brasileira – SVB:
https://www.svb.org.br/.
Para profissionais da área: Linha Orientação para Alimentação Vegetariana Saudável:
https://www.alimentacaosaudavel.dgs.pt/activeapp/wpcontent/
Documentários, vídeos, filmes: Muito Além do Peso, A Carne é Fraca?, Fed Up,
Cooked, Food Inc.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAENAL, R. C. Dieta vegetariana: riscos e benefícios. http://files.bvs.br/upload/S/1413-
9979/2015/v20n2/a4714.pdf

GUIA ALIMENTAR DE DIETAS VEGETARIANAS PARA ADULTOS. Sociedade
Vegetariana Brasileira. https://www.svb.org.br/livros/guia-alimentar.pdf

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia alimentar para a população brasileira.
http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasil
eira.pdf
Bruna L. Endl Bilibio, Nutrição Sem Mimimi.

Obrigada pela leitura, esperamos ter ajudado <3

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