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Democracia e responsabilidade: a falência do direito penal

O sistema penal brasileiro enfrenta uma situação bastante delicada: a realidade (tanto processual como carcerária) apresenta profundas desconformidades em relação ao que a legislação proclama. Muito embora o direito penal seja fundado a partir de processos democráticos, ele não vem obtendo os resultados a que, em tese, se propõe, especialmente em relação às diretrizes dos direitos humanos. Atualmente, o sistema penal parece se impor não para restaurar uma sociedade desestabilizada e transtornada pelo crime – este decorrente de fatores mais densos, como a falta de educação de qualidade e a miséria, por exemplo – mas tão somente para amortecer seus efeitos através da idealização (fantasiosa) de um “perfil criminoso”. Na prática, o poder punitivo do Estado é direcionado àqueles que, supostamente, são “maus” em essência. Não bastasse essa superficialidade, o direito penal reproduz, ainda, um conceito de justiça baseado na ideia de prêmio/castigo, preocupando-se em executar uma vingança que, na democracia, deixa de ser privada, mas passa a ser legalizada para o Estado. A responsabilização penal em uma sociedade Democrática A missão do Direito Penal …

Consumo e identidade: de onde vem essa ideia de que precisamos comprar nossa personalidade?

O conforto de não questionar o que nos é imposto como necessidade é, de fato, aconchegante. Apesar de exaustivo, é mais fácil aderir ao ritmo em que nosso mundo se movimenta atualmente do que indagá-lo. Questionar requer esforço emocional e nós fomos, justamente, convencidos de que não há tempo nem espaço para sentir. Ainda na revolução industrial, com a ascensão da classe burguesa e seus ideais imediatamente posteriores (que prezam pelo livre-mercado e pela propriedade privada, dentre outros ideais igualmente problemáticos, sobretudo para os pobres), criou-se um problema: os avanços industriais e tecnológicos passaram a exigir do homem uma mecanização semelhante à das máquinas – mesmo quando seu trabalho é intelectual – e diante da mecanização surgem crises de identidade em massa. A mecanização das ações e das respostas exigidas pelo mundo segregada e altamente capitalizado, além do isolamento decorrente dessa mesma conjuntura, são o berço do ceticismo que até os dias de hoje embala a mentalidade humana. Existe um sentido para estarmos aqui? Se a morte é certa, por que me preocupar com uma …

Positividade a todo custo: um tóxico disfarçado

Nós somos um emaranhado de circunstâncias: mentais, psicológicas, espirituais e físicas. Somos, em nós próprios, uma circunstância. Temos um ou mais papeis a desempenhar dentro de outras circunstâncias embaralhadas entre si. Estas, por sua vez, também dotadas de aspectos igualmente complexos. Equilibrar cada uma das particularidades da conjuntura de elementos de que somos formados é, no mínimo, melindroso. Como sanar as dúvidas mentais se, simultaneamente, precisamos satisfazer carências psicológicas e compreender fatores espirituais enquanto provemos saúde ao nosso corpo físico? Não espanta que, frente às circunstâncias que vivemos na atualidade – os controles exercidos através do medo – pareça difícil manter-se positivo em qualquer situação. Você já se perguntou, no entanto, por que deveria manter a positividade sob qualquer condição? Há muita distorção na disseminação das informações acerca da elevação espiritual e das condições para que isso se torne possível. Se você está nesse caminho, não por acaso está lendo este texto. O chamado ‘movimento nova era’, segundo fontes confiáveis, constitui um mecanismo de controle mental disfarçado. Esse movimento prega que o seu pensamento deve …

Uma dor feminina e abstrata

Nunca antes havia me sentido tão mulher. Capaz de gerar, nutrir e cultivar. Também jamais havia me sentido tão importante antes: eu era tudo para alguém. Não o tudo romântico, idealizado e apaixonado; eu era, literalmente, tudo: a casa, o alimento, a proteção e também a catástrofe. Uma mulher que não é mãe, será sempre uma mulher. Será subjugada a muitas injustiças pelo seu sexo e submeter-se-á a muitas dores, será também a resistência à hostilidade e, sem dúvidas, será a responsável por alguma (ou muito mais de uma) conquista. Uma mulher que é mãe, no entanto, experimenta ser mais do que mulher, uma vez que ela se torna o tudo de alguém. Pelo menos até esse alguém se tornar o tudo para ela, ou um nada intangível. Não conhecia esse sentimento até o momento em que eu descobri que seria mãe. Para ser mais honesta, eu menosprezava a maternidade. Fiz miserável a minha própria mãe, tantas vezes, por não ter ideia do que significava sê-lo. E como é fácil despedaçar seus corações quando você …

Somos cíclicas: como aceitar e enfrentar o ciclo menstrual naturalmente

Mulheres não são educadas para aceitar seu ciclo menstrual com naturalidade: tomamos pílulas, remédios para dor, falamos a todo o momento o quanto odiamos menstruar e, como se não bastasse isso, acreditamos e reproduzimos que menstruação é algo nojento. Acontece que a menstruação é, na verdade, além de uma limpeza necessária ao útero, uma oportunidade mensal de autoconhecimento e conexão com o nosso interior. Trata-se de um chamado orgânico do corpo feminino para recolhimento e introspecção. Somos cíclicas. Uma mulher que toma consciência do próprio ciclo e das energias inerentes  contidas nele , aprende  a perceber um nível de vida que vai mais além do visível , mantém um vinculo intuitivo com as energias da vida , o nascimento e a morte ,  Sente a divindade dentro da terra e de si mesma. – Miranda Gray em “Lua vermelha – os dons do ciclo menstrual” Como, no entanto, enfrentar esse período de maneira consciente e leve? O primeiro passo é, sem dúvidas, aceitá-lo – compreender que, embora atualmente possa ser evitada, a menstruação é benéfica …

Pare de tentar ser o que os outros esperam de você

Nunca li Hamlet, de Shakespeare. Ainda assim, sei que esse ensaio acolhe talvez uma das mais emblemáticas e célebres frases já escritas: ser ou não ser, eis a questão. Evidente que, dado seu uso quase que vulgar, nos dias de hoje, a sentença perdeu um pouco de seu carisma. Aliás, ouso dizer que qualquer frase que exija dos homens mais que mera assimilação, perde seu carisma na atualidade. Não porque as pessoas são menos inteligentes, mas porque estão, inegavelmente, mais alienadas. Aprendemos que é preciso estudar – aliás, não só estudar, mas estudar muito – afinal, queremos ser alguém na vida. Nesse tocante, jamais consegui entender se “ser alguém na vida” significa ser importante de alguma forma para a história da humanidade, ou simplesmente ser notado. De qualquer forma, estudamos muito, durante muitos anos. Aprendemos a escrever de acordo com a gramática; aprendemos a usar fórmulas matemáticas; aprendemos algumas propriedades químicas e aprendemos que corpo são e mente sã, são coisas complementares (daí a importância da educação física e afins). Aprendemos que tudo isso é …