Democracia e responsabilidade: a falência do direito penal

O sistema penal brasileiro enfrenta uma situação bastante delicada: a realidade (tanto processual como carcerária) apresenta profundas desconformidades em relação ao que a legislação proclama.

Muito embora o direito penal seja fundado a partir de processos democráticos, ele não vem obtendo os resultados a que, em tese, se propõe, especialmente em relação às diretrizes dos direitos humanos.

Atualmente, o sistema penal parece se impor não para restaurar uma sociedade desestabilizada e transtornada pelo crime – este decorrente de fatores mais densos, como a falta de educação de qualidade e a miséria, por exemplo – mas tão somente para amortecer seus efeitos através da idealização (fantasiosa) de um “perfil criminoso”.

Na prática, o poder punitivo do Estado é direcionado àqueles que, supostamente, são “maus” em essência. Não bastasse essa superficialidade, o direito penal reproduz, ainda, um conceito de justiça baseado na ideia de prêmio/castigo, preocupando-se em executar uma vingança que, na democracia, deixa de ser privada, mas passa a ser legalizada para o Estado.

A responsabilização penal em uma sociedade Democrática

A missão do Direito Penal

Para entender o que é, de fato, a responsabilização penal num contexto democrático, precisamos questionar: qual deve ser a missão do Direito Penal dentro de uma Democracia?

O Direito Penal tem uma função social dentro do Estado Democrático de Direito. A delegação de uma pena ao indivíduo infrator significa – ou deveria significar, numa perspectiva ideal desse contexto – além de um castigo à pessoa do condenado, a intenção de evitar a prática de novos crimes.

Se a pena é um mal necessário, devemos, num Estado Social e Democrático de Direito, buscar aquela que seja suficientemente forte para a proteção dos bens jurídicos essenciais, mas que, por outro lado, não atinja de forma brutal a dignidade da pessoa humana. – Greco (2010, p. 530).

Portanto, além de retribuir ao indivíduo o ‘mal’ causado, teoricamente o Direito Penal se propõe a assegurar que ele não volte a ter essa conduta e, ainda, a proteger a sociedade do infrator, por meio de sua exclusão do convívio social.

A falência desse sistema está claramente evidenciada pela superlotação de presídios e penitenciárias, bem como pelos índices de criminalidade ainda exuberantes no Brasil e no mundo.

A Criminologia e a Sociologia do direito penal contemporâneo assinalam diferentes funções. Para uns, por exemplo, o sistema penal cumpre a função de selecionar, de maneira mais ou menos arbitrária, pessoas dos setores sociais mais humildes, criminalizando-as, para indicar aos demais os limites do espaço social. […] Em síntese, o sistema penal cumpre uma função substancialmente simbólica perante marginalizados ou próprios setores hegemônicos (contestadores e conformistas). A sustentação da estrutura do poder social através da via punitiva é fundamentalmente simbólica. – Zaffaroni (2004, p. 76)

Não obstante, o caráter retributivo da pena oferece ao infrator uma medida puramente social-negativa que, por si só, se contrapõe a qualquer atuação preventiva, visto tratar-se de uma espécie de expiação, que anda em sentido oposto, inclusive, à possível ressocialização do apenado.

Em relação ao conceito de responsabilidade, a Constituição Federal de 1988 prescreve em seu Art. 5º, inciso XLV que “Nenhuma pena passará da pessoa do condenado” (princípio da personalidade da pena).

Esse princípio conecta-se à questão da responsabilidade à medida em que estabelece que a pena deve atingir apenas o réu, atribuindo-lhe, exclusivamente, a responsabilidade de assumir as medidas impostas.

Além do princípio descrito, há outros que norteiam a atuação do Direito Penal, como o princípio da humanidade. Essa diretriz é fundamental a um Estado Democrático de Direito: torna imprescindível o respeito à dignidade das pessoas receptoras das penas.

Nesse sentido, Ferrajoli (2010, p. 364) sustenta que o valor da pessoa humana impõe que exista uma limitação em relação à quantidade e à qualidade da pena, acima de qualquer argumento utilitário.

Assim, segundo o autor, um Estado que aplica penas desumanas (morte, tortura, etc.) contradiz sua razão de ser, já que em outra ocasião o mesmo Estado incumbe-se da tutela da vida e demais direitos fundamentais.

Por fim, importante destacar o princípio da jurisdicionalidade, que constitui uma garantia de que a jurisdição será aplicada por meio de processo.

A legislação penal, embora desatualizada frente às transformações sociais, aparentemente concorda com o caráter democrático do Estado Brasileiro. Na prática, porém, é evidente não efetivação dos princípios constitucionais.

A superlotação dos estabelecimentos prisionais e, por outro lado, a incessante criminalidade presente nas ruas, comprovam efetivamente a falência do sistema. Além disso, a arbitrariedade com que as milícias executam civis nas periferias e sequer são punidas, demonstra que a função social do direito penal é tão simbólica quanto injusta.

O assassinato de Marielle e Anderson, pelas mãos da milícia e sob ordens (de quem?) específicas, demonstram trágica, mas perfeitamente, a falência de um direito penal que, em realidade, cumpre uma função não positivada em nossas leis: o genocídio.

Mas voltando à questão primordial, o Direito Penal, dentro de uma democracia, deve se propor a reduzir os níveis de violência – tanto em relação à criminalidade quanto em relação às penas.

O sistema penal, do modo como se configura atualmente, especialmente do ponto de vista prático, vem se tornando insustentável, à medida em que simplesmente trata de remover do convívio social aqueles indivíduos que apresentam um certo tipo de perigo, não se preocupando em, efetivamente, reeducá-los ou sequer atender às suas necessidades mais básicas, como o oferecimento de um espaço minimamente digno para a execução de uma pena privativa de liberdade, por exemplo.

Dito isso, seria de grande valia que novas práticas viessem a ser adotadas no âmbito penal –  não a fim de extinguir o modelo penal que conhecemos hoje, mas de complementar e otimizar sua atuação. E uma das chaves para essa efetivação é o conceito de responsabilidade penal.

Uma nova concepção de responsabilidade

A Justiça Restaurativa apresenta-se como uma resposta inovadora e bastante consistente à resolução de alguns conflitos, já que se funda sob uma perspectiva diferente ao criar estratégias de responsabilização que garantem, tanto à vítima quanto ao ofensor, o respeito à sua dignidade enquanto pessoas.

Aqui, a responsabilização supera seu conceito tradicional e de viés moral porque todas as pessoas envolvidas na situação objeto da prática restaurativa (o crime) reconhecem o dano causado à vítima e tomam ação de modo assertivo para restaurar, emendar ou minimizar as consequências do ato. (SICA, 2007)

A responsabilização, no âmbito restaurativo, ultrapassa o caráter individualista ou de reprovação que se relaciona à responsabilidade tradicional.

À responsabilidade restaurativa é intrínseca a ideia de auto responsabilização, principalmente por parte do ofensor – processo cuja complexidade supera a noção da imposição de dor pelo mal causado.

Ao perceber o sofrimento alheio e, consequentemente, relacionar-se com a dor alheia com empatia, o autor do fato passa a assumir responsabilidade pelos seus atos.

De maneira prática, a assunção de responsabilidade, sob o viés restaurativo, precede as ações que serão efetivadas para reparar os danos causados.

Isso faz com que os sujeitos (1) sejam incumbidos de determinadas atribuições a fim de resolver, de maneira prática e eficiente, os danos ocasionados pela situação conflituosa e (2) superem sua condição de réu ou vítima enquanto partes dessa relação.

A atribuição da responsabilidade pelo viés restaurativo confere aos envolvidos um grande senso de humanidade, perfeitamente adequado a um Estado Democrático de Direito.

Referências:

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal, 13° Ed, v. 1. Rio de Janeiro: Impetus, 2010.

SICA, Leonardo. Justiça Restaurativa e Mediação Penal – O Novo Modelo de Justiça Criminal e de Gestão do Crime. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. Ed., 2007.

ZAFFARONI, Eugenio Rául. Manual de Direito Penal Brasileiro. 5ª Edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004.

WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. O sistema Penal e a proposta relegitimante minimalista: o utilitarismo penal reformado de Luigi Ferrajoli. Disponível em: < https://www.garantismobrasil.com/single-post/2015/06/13/O-sistema-penal-e-a-proposta-relegitimante-minimalista-o-utilitarismo-penal-reformado-de-Luigi-Ferrajoli > Acesso em: 20 abr. 2018.

Somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos?

Uma análise da célebre frase de “O Pequeno Príncipe”, por Antoine De Saint-Exupéry sob o viés da Comunicação não-violenta, de Marshall B. Rosenberg.

Ao final de uma aula de Justiça Restaurativa, em 2017, minha professora questionou uma frase que eu vinha tomando por verdade desde os meus cinco anos de idade: somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos?

A fantástica criação de Antoine De Saint-Exupéry, intitulada “O Pequeno Príncipe”, na minha opinião pessoal, não deixa margem para críticas. No entanto, mais importante do que criticar as leituras que consumimos, a obra permite (e até incita) muitos questionamentos.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

― Saint-Exupery A.

Quando tomei por verdade a frase dita pela raposa de Exupéry, na minha compreensão infantil (ou condicionada?), tomei também por verdade que eu era responsável pelos sentimentos das pessoas que cativei.

Somente depois de conhecer a Comunicação não-violenta por meio da Professora Ester Eliana Hauser e, mais tarde, ao ler o livro de Marshall B. Rosenberg, fui capaz de ressignificar a frase que tão orgulhosamente recitava desde criança.

Mas qual é o problema em constatar que somos responsáveis por aquilo que cativamos?

A responsabilidade que assumimos pelos sentimentos dos outros, mas nunca pelos nossos

Estamos habituados com um conceito de responsabilidade que não, necessariamente, satisfaz o entendimento que buscamos: a obrigação de responder por atos próprios ou alheios.

Assumir uma responsabilidade é, portanto, responder às consequências decorrentes de atos próprios ou alheios (quando as circunstâncias assim o requerem, em aspectos legais, por exemplo). Mas e quanto à responsabilidade afetiva?

Em geral, fomos ensinados a tomar responsabilidade (ou responder) por sentimentos alheios e, ao mesmo passo, a responsabilizar outras pessoas por aquilo que sentimos.

Apesar de ser fatídico que as ações dos outros podem, sim, desencadear transtornos, Rosenberg pontua em seu livro que existe uma diferenciação a ser feita entre causa e estímulo.

Segundo o autor, “o que os outros dizem e fazem pode ser o estímulo, mas nunca a causa de nossos sentimentos”. Para Rosenberg, nossos sentimentos resultam da maneira como escolhemos receber o que as pessoas nos disseram ou fizeram.

Diante dessa questão, a frase “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” pode ser interpretada como uma forma de reafirmar uma responsabilização alheia às nossas escolhas, vontades e necessidades.

Como receber mensagens sem assumir responsabilidades alheias?

Rosenberg elenca quatro reações possíveis para quando recebemos mensagens (especialmente negativas):

  1. Culpar a nós mesmos: aceitamos o julgamento da outra pessoa e passamos a assumir o sentimento de culpa ou vergonha pelo que o outro sente.
  2. Culpar os outros: culpar o interlocutor por sentir-se como sente e, em decorrência, assumir o sentimento de raiva.
  3. Escutar nossos próprios sentimentos e necessidades: identificar o que sentimos com a mensagem do interlocutor e reconhecer que necessidade não está sendo atendida no processo de comunicação (ou em situações práticas).
  4. Escutar os sentimentos e necessidades dos outros: identificar o sentimento e reconhecer que necessidades do interlocutor não estão sendo atendidas.

Aceitamos a responsabilidade por nossos próprios sentimentos – e não pelos sentimentos alheios – quando reconhecemos que, da expressão de cada sentimento, decorre uma necessidade não satisfeita.

Deixamos de assumir responsabilidade pelos sentimentos dos outros quando compreendemos que sua mensagem não é um julgamento pessoal, mas uma expressão de insatisfação de alguma de suas necessidades.

Quando a raposa fala sobre responsabilidade

A ressignificação da frase analisada aqui é pessoal, mas talvez possa servir para mais pessoas.

Quando a raposa fala em responsabilidade, ao invés de compreender que devemos responder pelos atos e sentimentos de tudo aquilo que cativamos, escolhi entender que tudo o que eu cativei, o fiz por meio de uma escolha consciente e própria, atribuindo à responsabilidade um significado de consciência.

Portanto, eu me torno eternamente consciente de tudo aquilo que conquistei.

A consciência e o entendimento sobre responsabilidade não exigem, mas possibilitam que, a partir do momento em que eu cativo alguma coisa ou alguém, eu aja com responsabilidade e com respeito.

A raposa continua sendo minha personagem favorita.

Consumo e identidade: de onde vem essa ideia de que precisamos comprar nossa personalidade?

O conforto de não questionar o que nos é imposto como necessidade é, de fato, aconchegante. Apesar de exaustivo, é mais fácil aderir ao ritmo em que nosso mundo se movimenta atualmente do que indagá-lo. Questionar requer esforço emocional e nós fomos, justamente, convencidos de que não há tempo nem espaço para sentir.

Ainda na revolução industrial, com a ascensão da classe burguesa e seus ideais imediatamente posteriores (que prezam pelo livre-mercado e pela propriedade privada, dentre outros ideais igualmente problemáticos, sobretudo para os pobres), criou-se um problema: os avanços industriais e tecnológicos passaram a exigir do homem uma mecanização semelhante à das máquinas – mesmo quando seu trabalho é intelectual – e diante da mecanização surgem crises de identidade em massa.

A mecanização das ações e das respostas exigidas pelo mundo segregada e altamente capitalizado, além do isolamento decorrente dessa mesma conjuntura, são o berço do ceticismo que até os dias de hoje embala a mentalidade humana. Existe um sentido para estarmos aqui? Se a morte é certa, por que me preocupar com uma carreira?

Diante dessa problemática e, a fim de dar um rumo útil aos rebanhos niilistas, o capitalismo, extremamente articulado, nos vende a solução, batizando-a de “estilo de vida”. Portanto, não importa se, em meio às suas incessantes jornadas de trabalho, estudo e cuidados com a casa, você não tem tempo para entender quem você é; a solução é simples: basta comprar sua identidade.

Assim, para assumir uma personalidade, você precisa ter produtos que reafirmem constantemente seu estilo de vida. Seus gostos musicais devem estar estampados nas roupas e objetos que você utiliza; suas preferências alimentares, suas crenças, seus ceticismos… tudo precisa ser comprado para que você sinta que, de fato, é aquilo que acredita ou quer ser.

A mentalidade por trás do consumismo inconsciente é “compro, logo sou”, inspirada na célebre sentença “penso, logo existo”, de Descartes que, por sua vez, guarda uma semelhança distante com a verdade: sinto, logo sou.

Não obstante, a mídia, em seus mais diversos formatos (televisão, internet, redes sociais, revistas…), tem o importante papel de nos causar uma sensação de perpétuo vazio: vazio por não ter um carro, uma roupa, um acessório.

Estamos, literalmente, programados a participar dessa classe de consumistas inconscientes. Todos os conteúdos que acessamos nos dizem isso, todos os dias. E, apesar de nada digna, a realidade é que uma mentira repetida muitas vezes, acaba se tornando uma verdade aos ouvidos de quem a escuta – ou aos olhos de quem a enxerga.

De igual forma, o consumo exagerado de comida não é um acaso das vidas apressadas; trata-se de mais uma articulação, que nos mantém sedentários de corpo e mente, nutrindo pobremente nossos corpos com ultraprocessados e substâncias literalmente tóxicas.

Despertar a percepção de que não precisamos reafirmar nossa personalidade fazendo compras, no entanto, pode trazer uma sensação de não pertencimento assustadora, afinal, se não somos parte de um grupo designado a partir de nossos pertences, quem somos?

Essa programação nociva termina com um elemento surpresa: o medo. Temer a sensação de não pertencimento, de vazio, é o que vai nos manter estagnados, ou seja, presos a essa realidade.

A superação da ideia de que precisamos comprar (consumir) a nossa identidade acontece somente quando há o enfrentamento do medo (de não ser ou não pertencer). Antes disso, há apenas estagnação ou aceitação da realidade que nos é, literalmente, vendida.

Uma vez despertos para a possibilidade de outras realidades que não essa apresentada como única e correta, precisamos, assim como no momento em que acordamos de manhã, deixar a nossa zona de conforto – os, então, metafóricos cobertores – e, antes de mais nada, firmar nossos pés no chão.

É preciso saber que nem tudo o que nos é apresentado como necessidade é, de fato, necessário. Quem sabe, estamos trabalhando tão louca e exaustivamente, para pagar por coisas de que não precisamos. Já parou para analisar isso?

Aqui, cabe dizer que necessidades básicas como alimento, agasalho e abrigo não se tratam de luxos ou necessidades impostas, mas de condições básicas de subsistência, a que todos nós temos direito enquanto habitantes da terra (e irmãos, para quem tem fé na espiritualidade e na fonte primordial que nos conecta, inevitavelmente, uns aos outros).

O consumo inconsciente é um hábito (um vício!) amplamente difundido na sociedade a nível mundial. Interromper um vício é deixar de alimentá-lo. E a chave para essa mudança não está no consumo, mas no consciente.

Consumir menos não significa livrar-se de confortos, mas reduzir e eliminar tudo aquilo que não tem valor em nossas vidas; tudo o que nos distancia de quem realmente somos. O consumo, assim como qualquer outra atividade, precisa ser feita conscientemente, ou estará fadada a uma reprodução mecanizada e não servirá a nenhum fim (ou servirá a um fim alheio aos reprodutores).

Para manifestar uma identidade, precisamos de ações, e não de produtos.

Uma caneca da Marvel não agrega heroísmo às nossas vidas; atitudes corajosas, sim. Roupas caras não nos deixam bonitos; humildade e simpatia, sim. Entende?

Não faz mal ter objetos temáticos ou caros se eles são úteis ou fazem sentido na sua vida. O que faz mal é procurar neles o que esteve, o tempo todo, em você. Não se pode colocar um preço na identidade de qualquer ser vivo. Ter personalidade é muito antes sobre ser e fazer, do que é sobre ter.

Inspiração para o post: A viagem de Chihiro

Positividade a todo custo: um tóxico disfarçado

Nós somos um emaranhado de circunstâncias: mentais, psicológicas, espirituais e físicas. Somos, em nós próprios, uma circunstância. Temos um ou mais papeis a desempenhar dentro de outras circunstâncias embaralhadas entre si. Estas, por sua vez, também dotadas de aspectos igualmente complexos.

Equilibrar cada uma das particularidades da conjuntura de elementos de que somos formados é, no mínimo, melindroso. Como sanar as dúvidas mentais se, simultaneamente, precisamos satisfazer carências psicológicas e compreender fatores espirituais enquanto provemos saúde ao nosso corpo físico?

Não espanta que, frente às circunstâncias que vivemos na atualidade – os controles exercidos através do medo – pareça difícil manter-se positivo em qualquer situação.

Você já se perguntou, no entanto, por que deveria manter a positividade sob qualquer condição?

Há muita distorção na disseminação das informações acerca da elevação espiritual e das condições para que isso se torne possível. Se você está nesse caminho, não por acaso está lendo este texto.

O chamado ‘movimento nova era’, segundo fontes confiáveis, constitui um mecanismo de controle mental disfarçado. Esse movimento prega que o seu pensamento deve se manter positivo e que, para todos os fins, basta praticar meditações, yoga e se alimentar de maneira saudável.

“Seja sempre positivo, não demonstre raiva, deixe tudo fluir, nada de mau vai acontecer” – essas são algumas das mensagens que o movimento nova era emana. Contudo, a vida, em seu sentido mais amplo, não é um ciclo tão frívolo que simplesmente se deva deixar acontecer.

É necessário agir, fazer escolhas e, dentro dessas escolhas, prezar pelo que é certo. Não basta que alimentemos cada aspecto de nossa constituição, enquanto seres, de positividade. Aliás, é impossível que isso aconteça de maneira constante.

Isso porque a ação necessariamente implica lidar com emoções, sofrimentos e o enfrentamento de medos. Como manter uma positividade utópica sob essas circunstâncias?

O movimento nova era impede as pessoas de agirem e participarem ativamente na transformação do mundo (e até mesmo de suas próprias vidas).

Explico: aceitar tudo o que a vida lhe oferecer é importante para que, a partir daí, você observe que ações te levaram para onde você está – lembrando que o pensamento em si já é uma ação. E se o nosso pensamento cria a realidade (o que é um fato), é quase óbvio que devemos pensar positivamente a todo o momento, certo?

Só que, sabendo que somos um emaranhado de circunstâncias vivendo em meio a outras circunstâncias emaranhadas, precisamos ter consciência de que para enfrentar cada fio desse emaranhado, é necessário ter seriedade.

A ilusão de que é possível enfrentar perdas, dores e dificuldades e manter-se positivo nos aprisiona: nos faz acreditar que todo o sofrimento é necessário, quando na verdade pode ser evitado por meio de atitudes assertivas.

Positividade é ação, não conformismo.

É preciso saber que o controle dos nossos pensamentos e ações pertence, estritamente, a nós mesmos – precisamos retomá-lo. A positividade é um, entre muitos aspectos dessa retomada de controle.

Algumas situações vão causar estresse, raiva, medo, insegurança, culpa. Estar no controle não significa não sentir, mas transcender esse sentimento; agir, ainda que assustado pelas sombras, e encontrar uma maneira de transmutá-las em luz.

Ser positivo é saber que, no final, tudo vai dar certo. Ainda que ocorram erros e ainda que enfrentemos sombras, ser positivo não é negar nenhum desses acontecimentos: é acolhê-los, admiti-los, e deixá-los nos ensinar.

Não precisamos abdicar de opiniões próprias para que sejamos observadores da realidade sem nos deixar ser controlados por ela; existe uma linha tênue entre ser um observador e deixar-se controlar pela negatividade.

Ter opinião acerca de um fato não implica, necessariamente, a perda do controle das emoções. Na verdade, é fundamental se posicionar e defender o que é certo quando você é um observador da realidade. É essencial saber que a realidade nem sempre é positiva.

Então, se queremos ser operadores de uma era realmente nova em que nós, humanos, vamos de fato ter a liberdade de exercer o controle sobre nós próprios, precisamos ser conscientes de que essa liberdade exige a responsabilidade de identificar o negativo e superá-lo, mas nunca negar sua existência.

Uma dor feminina e abstrata

Nunca antes havia me sentido tão mulher. Capaz de gerar, nutrir e cultivar. Também jamais havia me sentido tão importante antes: eu era tudo para alguém. Não o tudo romântico, idealizado e apaixonado; eu era, literalmente, tudo: a casa, o alimento, a proteção e também a catástrofe.

Uma mulher que não é mãe, será sempre uma mulher. Será subjugada a muitas injustiças pelo seu sexo e submeter-se-á a muitas dores, será também a resistência à hostilidade e, sem dúvidas, será a responsável por alguma (ou muito mais de uma) conquista. Uma mulher que é mãe, no entanto, experimenta ser mais do que mulher, uma vez que ela se torna o tudo de alguém. Pelo menos até esse alguém se tornar o tudo para ela, ou um nada intangível.

Não conhecia esse sentimento até o momento em que eu descobri que seria mãe. Para ser mais honesta, eu menosprezava a maternidade. Fiz miserável a minha própria mãe, tantas vezes, por não ter ideia do que significava sê-lo. E como é fácil despedaçar seus corações quando você só é uma filha – mas para elas, é o mundo.

Tão logo meu mundo virou-se de ponta-cabeça, ele se despedaçou. Eu era tudo para alguém… que não estava mais ali. E o tudo que era meu (que era nosso, meu e do meu companheiro), tornou-se um vazio. Quase um quadro em branco – onde podemos pintar novas possibilidades – só que manchado de sangue. E isso doeu. Doeu tanto…

Um fato estranho sobre a dor: às vezes ela é matéria-prima das mais belas obras artísticas; outras vezes ela é só uma aflição, abstrata demais, até mesmo para a arte.

Então eu fui a casa, o alimento, a proteção – eu fui o tudo – de alguém. Fui mãe. Eu gerei e nutri, mas não pude cultivar. Fui a catástrofe. Só que nessa tragédia não há culpa. Nunca antes havia me sentido tão mulher.

Somos cíclicas: como aceitar e enfrentar o ciclo menstrual naturalmente

Mulheres não são educadas para aceitar seu ciclo menstrual com naturalidade: tomamos pílulas, remédios para dor, falamos a todo o momento o quanto odiamos menstruar e, como se não bastasse isso, acreditamos e reproduzimos que menstruação é algo nojento.

Acontece que a menstruação é, na verdade, além de uma limpeza necessária ao útero, uma oportunidade mensal de autoconhecimento e conexão com o nosso interior. Trata-se de um chamado orgânico do corpo feminino para recolhimento e introspecção.

Somos cíclicas.

Uma mulher que toma consciência do próprio ciclo e das energias inerentes  contidas nele , aprende  a perceber um nível de vida que vai mais além do visível , mantém um vinculo intuitivo com as energias da vida , o nascimento e a morte ,  Sente a divindade dentro da terra e de si mesma. – Miranda Gray em “Lua vermelha – os dons do ciclo menstrual”

Como, no entanto, enfrentar esse período de maneira consciente e leve?

O primeiro passo é, sem dúvidas, aceitá-lo – compreender que, embora atualmente possa ser evitada, a menstruação é benéfica ao nosso corpo e espírito: leva a morte, o lixo, o que já não nos serve, e assim abre espaço para o novo. Nos incentiva à auto-observação, fazendo com que meditemos sobre nossos sentimentos e ações.

Compartilho também algumas dicas que podem ajudar a amenizar os efeitos da TPM e das cólicas natural e confortavelmente.

Alimentação

A alimentação será sempre o melhor remédio para qualquer desconforto ou doença. Se você se alimenta de maneira saudável, o seu corpo será saudável, isso é básico.

Por que, então, muitas pessoas saudáveis contraem doenças?

Porque, muito provavelmente, essas pessoas comem carnes e muitos produtos industrializados, cheios de conservantes e açúcares – isso não é saudável e muito menos natural. Quanto mais próxima a sua comida estiver da natureza, tanto melhores serão seus efeitos no corpo.

O que comer durante o período menstrual?

Três nutrientes são muito importantes durante esse período: magnésio, cálcio e potássio.

Uma quantidade absurda de pessoas tem deficiência de magnésio no organismo, o que é preocupante, visto que o magnésio tem uma atuação fundamental no sono, na redução da ansiedade, nas dores de cabeça e também nas cólicas menstruais.

Alimentos que contêm magnésio: Espinafre, banana, amêndoas, castanhas, feijão, chia, abacate, lentilha.

A combinação do cálcio com o magnésio reduz, significativamente, as cólicas menstruais. Os alimentos ricos em cálcio e magnésio devem ser consumidos de forma complementar, a fim de que seu organismo tenha quantidades suficientes de ambos.

Alimentos que contêm cálcio: brócolis, laranja, amêndoas, tofu, aveia, couve.

Além disso, organismos com baixo nível de potássio tendem a ter mais cólicas menstruais. Esse mineral abranda as contrações musculares e, portanto, quando equilibrado no organismo, alivia a sensação de cólica.

Alimentos que contém potássio: cenoura, batata doce, espinafre, cogumelos, tomate, banana.

A importância de uma alimentação vegana

Por experiência própria, posso dizer que desde que me tornei vegana meu ciclo menstrual mudou significativamente. Tanto as cólicas reduziram quanto o estresse e os nervosismos causados pela TPM – eles não foram anulados, até porque tudo faz parte do processo.

Mulheres veganas realmente enfrentam menos dores e desconfortos durante o ciclo menstrual. Se quiser ler mais sobre isso, esse link tem um post bem completo.

Frutas e vegetais contêm todos os elementos de que o nosso corpo precisa e, dessa forma, uma dieta  vegana equilibrada provê magnésio, cálcio e potássio.

Yoga – 6 asanas para aliviar a dor

A prática de yoga é eficiente para muitas coisas, como tonificação muscular, alívio de dores e concentração.

Para aliviar os desconfortos do período menstrual, você pode (e deve) praticar essas seis poses. Eu, particularmente, seguro as poses por 8 respirações, ou enquanto sinto a tensão muscular sendo aliviada.

1. Extensão para a frente

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2. Bebê

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3. Flexão para a frente

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4. Postura do vento

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5. Vaca/gato

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6. Postura sentada em ângulo com uma perna

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Para além dessas dicas, você pode ainda recorrer aos chás – gengibre é uma boa opção.

Nós somos tanto mais que o nosso corpo! Mas isso não significa que cuidar dele não seja essencial. Mulheres são lindas – de todas as formas, cores e tamanhos. Cuidar da casca em que habitamos (tão brevemente) é demonstrar gratidão por esse instrumento com que o Universo nos presenteou.

Nutrir o corpo com o que ele precisa evita qualquer doença, a gente só precisa ter paciência para deixar a natureza fazer seu trabalho, e persistência para auxiliá-la como pudermos.

Espero ter ajudado. Se tiverem perguntas, dúvidas ou contribuições, comentem! <3

Pare de tentar ser o que os outros esperam de você

Nunca li Hamlet, de Shakespeare. Ainda assim, sei que esse ensaio acolhe talvez uma das mais emblemáticas e célebres frases já escritas: ser ou não ser, eis a questão. Evidente que, dado seu uso quase que vulgar, nos dias de hoje, a sentença perdeu um pouco de seu carisma. Aliás, ouso dizer que qualquer frase que exija dos homens mais que mera assimilação, perde seu carisma na atualidade. Não porque as pessoas são menos inteligentes, mas porque estão, inegavelmente, mais alienadas.

Aprendemos que é preciso estudar – aliás, não só estudar, mas estudar muito – afinal, queremos ser alguém na vida. Nesse tocante, jamais consegui entender se “ser alguém na vida” significa ser importante de alguma forma para a história da humanidade, ou simplesmente ser notado.

De qualquer forma, estudamos muito, durante muitos anos. Aprendemos a escrever de acordo com a gramática; aprendemos a usar fórmulas matemáticas; aprendemos algumas propriedades químicas e aprendemos que corpo são e mente sã, são coisas complementares (daí a importância da educação física e afins). Aprendemos que tudo isso é importantíssimo para todos nós enquanto indivíduos e, antes de nós, nossos pais e avós já vinham aprendendo o mesmo.

Depois, precisamos trabalhar. E como precisamos! Dinheiro não dá em árvore, e as contas não se pagam sozinhas. Em contrapartida, engraçado notar que, às vezes, elas se criam sozinhas (ou melhor, são cobradas indevidamente).

Bom, então é isso. Nós estudamos para poder trabalhar; trabalhamos para poder pagar as contas. Nem penso em contestar o sistema capitalista, acho que já cansei disso. Ou talvez não tenha tempo, porque preciso estudar apenas o que me qualifica enquanto profissional, para que as contas que faço comprando roupas e objetos supérfluos, a fim de manter-me no padrão esperado, sejam sanadas.

Então, um dia, me deparo com a taquicardia e com os pensamentos acelerados. Tudo isso perde o sentido. Pronto. Fui diagnosticada com ansiedade! Agora sim, faço parte da minha geração: me preocupo constantemente com a minha aparência, embora a ansiedade me faça, ao mesmo tempo, desleixar dela; fico horas remoendo pensamentos antes de dormir, matutando repetidas vezes os meus “e se”; em casa penso no trabalho e no trabalho penso em minha casa; estou sempre preocupada com o que virá depois, mas, na ironia que é existir, ainda sinto as dores do que foi ontem.

Encaro a frase “Ser ou não ser, eis a questão” e, com pesar, percebo que não estou sendo. Conheço essa frase desde a infância, e jamais sequer prestei atenção à perspicácia dessa indagação. Não tive tempo. Ainda que não tenha lido Hamlet, sei que não estou sendo, porque procuro respostas prontas, o tempo inteiro: para as provas da escola e faculdade, para as questões do trabalho, para os problemas pessoais.  Procuro reproduzir padrões. Tudo o que faço é mera reprodução de tudo aquilo que me foi ensinado, e antes disso, fora ensinado às gerações pretéritas. Isso não é ser, no máximo, é existir – existir realizando anseios que sequer são meus.

Eu não li Hamlet, eu não sei a que se direciona a indagação do autor. Eu estive muito preocupada tentando ser alguém na vida e não tive tempo para ler, muito menos para tentar interpretar o que quer que Shakespeare quisera dizer… E enquanto vou vivendo em busca desse alguém que quero ser, sempre limitada pelo alguém que um dia já fui, tudo o que eu sou, neste momento, desvanece em angústia – não há tempo para o agora.

Como é difícil viver agora! Ser agora. Sentir agora. Vivo sem ser, a fim de perseguir o que pretendo vir a ser e o que pretendo ter, e isso me ocupa tanto tempo e espaço, que jamais me recordo de observar tudo que já sou e aquilo que já obtive. Em outras palavras: esqueço de agradecer àquilo que o agora me proporciona.

Nós, humanos, definitivamente não valorizamos o que já temos e, não bastasse isso, ainda superestimamos muitas de nossas ambições. Fantasiamos o prazer que vamos sentir quando da conquista de uma meta e, quando de fato a conquistamos, ela já não é mais suficiente para nos satisfazer. Isso definitivamente não é ser – no máximo, existir e realizar.

“Não ser” não faz o menor sentido, caro Shakespeare. A questão está resolvida: antes ser do que não ser. “Ser”, no entanto, implica na concepção de infinitas outras questões, às quais difícil e felizmente não seremos capazes que formular respostas prontas. Não há fórmula ou padrão para o “ser”. Eu vou dizer mais uma vez: não existe fórmula, nem padrão para o que se é, para o que se está sendo.

Agora, pergunto eu, o que você está sendo?